Por Ògan Assogbà Luiz Alves/PROJETO ONIBODÊ
No último fim de semana, a cidade de Águas Lindas de Goiás foi palco de uma celebração histórica que marcou o fortalecimento da cultura e da religiosidade afro-brasileira na região. O ILÊ ASE AFEFE ÓRUN, conduzido por Pai Márcio de Oyá, foi oficialmente inaugurado em um evento repleto de fé, tradição e resistência. A festa, uma homenagem à Oyá – orixá das tempestades, das transformações e guardiã dos ancestrais –, contou com a participação de lideranças religiosas, membros da comunidade afro-religiosa local e visitantes de diversas cidades do Entorno, incluindo Brasília e entidades que lutam em prol de NOSSA COMUNIDADE e AFRO RELIGIOSIDADE, como a ATRACAR e o PROJETO ONÍBODÊ, .

Sob a condução espiritual de Pai Rubinho de Oxossí, a cerimônia foi marcada pela beleza ritualística típica das casas de axé, onde cânticos, toques de atabaques e danças sagradas celebraram a força ancestral de Oyá e a energia renovadora que permeia cada nascer de um novo terreiro. Na ocasião aconteceu também a co firmação de um ALABÊ e a suapenção de mais dois ÒGANS por OYÁ. Para os presentes, a ocasião não foi apenas uma festa religiosa, mas um ato político de resistência cultural frente às inúmeras adversidades enfrentadas pela comunidade de matriz africana no Brasil.
A Força da Resistência Afro-Religiosa
O levantamento de uma casa de axé é, antes de tudo, um símbolo poderoso de resistência. Em um país onde as religiões de matriz africana ainda enfrentam preconceito, intolerância e ataques físicos e simbólicos, ver mais um ilê erguido é uma vitória coletiva. "A construção deste espaço é uma resposta àqueles que tentam silenciar nossa voz e apagar nossa história". "Nossa religiosidade é ancestral, é raiz, e aqui estamos para honrar nossos antepassados e garantir que nossas tradições permaneçam vivas para as futuras gerações', disse Pai Rubinho de Oxossí
O ILÊ ASE AFEFE ÓRUN, surge como um espaço de acolhimento, aprendizado e celebração da cultura afro-brasileira. Além de ser um ponto de encontro para rituais e práticas religiosas, o terreiro também se propõe a ser um centro de educação e conscientização sobre a importância da preservação das tradições africanas no Brasil.
Uma Celebração Coletiva
A inauguração contou com a presença de sacerdotes e sacerdotisas de diferentes terreiros da região, demonstrando a união e a solidariedade que caracterizam a comunidade afro-religiosa. Representantes de casas de axé de Águas Lindas, Brasília, Valparaíso, Sobradinho e outras cidades do Entorno compareceram para prestigiar o evento, reafirmando a importância de fortalecer redes de apoio entre as comunidades tradicionais.
Pai Rubinho de Oxossí, responsável por conduzir os rituais da noite, destacou a relevância de Oyá como inspiração para momentos de transformação e renovação. "Oyá é o vento que derruba o velho para que o novo possa brotar. Hoje, estamos plantando as sementes de um futuro onde nossa religiosidade será ainda mais respeitada e valorizada", disse ele, emocionando os presentes.
A programação incluiu oferendas, saudações aos orixás, e um grande banquete que tradicionalmente se transforma em um momento de encontros e reencontros. Cada detalhe da celebração foi pensado para homenagear as divindades e conectar os participantes com suas raízes espirituais e ancestrais.
Um Chamado à Luta Contra a Intolerância
Embora o evento tenha sido marcado por momentos de muita alegria e espiritualidade, também é umomemto e espaço para reflexões sobre os desafios enfrentados pela comunidade afro-religiosa. Nos últimos anos, casos de racismo religioso têm aumentado no Brasil, com relatos frequentes de vandalismo contra terreiros, discriminação e violência contra praticantes dessas religiões.
Diante disso, a criação do ILÊ ASE AFEFE ÓRUN assume um caráter ainda mais significativo. Trata-se de um espaço onde a fé pode ser exercida livremente, onde a cultura pode ser celebrada sem medo e onde as novas gerações podem aprender sobre suas origens. "É preciso ocupar os espaços e mostrar que existimos, que somos parte fundamental da identidade brasileira, disse emocionado Pai Ricardo de Oxossí.
Olhar para o Futuro
Para os fundadores e frequentadores do ILÊ ASE AFEFE ÓRUN, o terreiro é mais do que um lugar de culto: é um refúgio, um ponto de luz em meio às adversidades. É também um convite à sociedade para dialogar sobre pluralidade, respeito e diversidade religiosa. Ao abrir suas portas, a casa de axé reafirma que a luta contra o racismo e a intolerância religiosa deve ser uma causa de todos.
A inauguração do ILÊ ASE AFEFE ÓRUN é um lembrete poderoso de que, mesmo diante das dificuldades, a comunidade afro-religiosa segue firme, resistente e unida. Que este novo espaço seja um farol de esperança e transformação, inspirando outros a erguerem seus próprios ilês e a continuarem lutando pela preservação de nossa rica herança cultural.
*Axé ao ILÊ ASE AFEFE ÓRUN e que Oyá abençoe todos os caminhos!*