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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

O Toque do Rei: Em Águas Lindas, um novo Ilê de Xangô ergue seu OXÊ SAGRADO contra o silêncio e a intolerância



Por: Ògan Assogbá Luiz Alves/ PROJETO ONÍBODÊ

ÁGUAS LINDAS DE GOIÁS, 11 de Outubro de 2025 – O solo sagrado tremeu. Não foi um tremor geológico, mas um abalo ancestral, um eco vindo diretamente de Oyó que encontrou solo fértil no coração do Cerrado. Na tarde deste sábado, sob um sol que abençoou a cerimônia, o Ilê Ase Iná Ojú Obá Óyó abriu suas portas, e com elas, abriu-se um novo capítulo de resistência, acolhimento e axé na região. Mais do que a inauguração de um templo, foi a coroação de um ato de coragem.



A casa, que em yorubá significa “A Casa do Fogo do Senhor Rei de Oyó”, é liderada pela Mãe Kynalunguê (Mãe Laliana Alho), uma sacerdotisa cujo olhar sereno carrega a força de gerações. Ela, junto com seus filhos e filhas de santo, recebeu a todos não como espectadores, mas como parte de uma grande família extensa, num carinho que se manifestava num abraço, num sorriso. O axé, a força vital, não era um conceito abstrato; era palpável, um calor que envolvia cada canto do espaço, uma positividade que lavava a alma das atribulações do mundo lá fora.

Os presentes testemunharam o que as comunidades de matriz africana sabem, mas que o mundo insiste em ignorar: estes espaços são portos seguros. São lugares onde a palavra de conforto vira um bálsamo, onde o apoio na luta contra as injustiças se transforma em estratégia coletiva, e onde o acolhimento não é um slogan, mas uma prática diária e real. Em um país onde a intolerância religiosa mostra suas garras com frequência cruel, respirar a liberdade daquele terreiro era, em si, um ato revolucionário.

E então, o ápice. O momento em que a emoção, contida até então em sorrisos e lágrimas discretas, transbordou. A comitiva do Rei de Oyó adentrou o ESPAÇO SAGRADO. Os atabaques falaram uma linguagem mais antiga que qualquer idioma. O ritmo, firme e solene, era o próprio pulsar do coração de Xangô. A energia mudou, o ar ficou denso, carregado de uma presença majestosa e justiceira. Não era apenas uma performance; era a chegada do próprio Orixá, daquele que é senhor da justiça, da política e do fogo transformador. A cerimônia foi conduzida por Pai Ricardo de Oxóssi com a participação de seus filhos que foram dar o abraço e participar das funções da nova casa da Famíllia do Ilê Axé Odé Erinlé e também com a presença de Pai Alan Baloni (avô de Mãe Laliane) e seus filhos 

Naquele instante, todos – iniciados e não-iniciados – foram envolvidos por uma onda de amor e esperança. Era a sensação tangível de que, apesar dos ataques diários, dos momentos difíceis que assolam nossa comunidade, nós resistimos. A abertura daquele Ilê é muito mais que uma conquista local; é um farol. Um clarão no escuro que anuncia: “Permanecemos aqui. Cultuamos nossos ancestrais aqui. E, apesar de tantos quererem nos silenciar, nossa voz ecoará através dos tambores”.

O Ilê Ase Iná Ojú Obá Óyó não é apenas uma casa de Xangô. É uma trincheira de cultura, um hospital da alma, uma escola de ancestralidade. Cada canto abençoado, cada folha sagrada, cada toque do rum, rumpi e lé é um grito de existência.



A tarde terminou, mas o toque do rei continua ecoando. Ele ressoa como um lembrete poderoso, um juramento feito à sociedade: O AXÉ SEMPRE PREVALESCERÁ E RESISTIRÁ CONTRA O RACISMO RELIGIOSO E SUAS MAZELAS. E em Águas Lindas, um novo fogo foi aceso, e sua chama, alimentada pela fé de um povo que não se cala, promete iluminar por muitas gerações. Um dia, sem dúvida, para ficar guardado para sempre em nossa memória afetiva e em nossa história de luta.

Que os Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união. 

Xangô Vive

Que os Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união. 

Axé!

*APOIE, DIVULGUE E INCENTIVE O ONÍBODÊ (O PORTEIRO) por uma comunicação ANTI-FACISTA, ANTI-RACISTA e de apoio à Nossa Comunidade Negra e Afro Religiosa com doações a partir de R$25,00 (vinte e cinco reais)*

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domingo, 29 de junho de 2025

Fogueira de Xangô: Resistência, Fé e União Ecoaram nas Alturas em Águas Lindas

Por: Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ

Em meio a noite de um sábado carregado de energia, a Justiça reverberou com a força dos Orixás — especialmente de Xangô, Senhor do Fogo e da Justiça. Sob a liderança de Pai Ivanildo de Xangô, um dos mais respeitados babalorixás da região de Águas Lindas, Brasília e Territórios, aconteceu ontem à noite no ILÊ ASÉ IRÁJINÀN uma das celebrações mais marcantes e simbólicas da resistência da comunidade afro-religiosa local: a tradicional Fogueira de Xangô. Além das casas presentes estavam também representantes de organizações que lutam e defendem Nossa Comunidade Afro Religiosa e Fé como a ATRACAR -GO, FOAFRO-DF, o COLETIVO DE WHATSSAP DEFENSORES DO AXÉ e o PROJETO ONÍBODE fazendo a cobertura.

A noite foi muito mais do que uma simples festa — foi um ato de fé inabalável, um manifesto cultural e espiritual de um povo que, mesmo diante das adversidades, se mantém firme na raiz ancestral. Com a presença maciça da comunidade, fiéis e admiradores vieram de diferentes pontos da região para louvar o Rei de Oyó, dono da palavra, da justiça e das pedras sagradas, num encontro que misturou tradição, emoção e conexão direta com o sagrado. Mãe Luzinete de Oxum sempre nos proporcionando uma bola acolhida e recepção.

Os Atabaques Falaram Mais Alto

Assim que os primeiros toques dos atabaques ecoaram, foi como se os céus de Águas Lindas tivessem se aberto para receber a energia do Orixá Guerreiro. Cada batida era um pedido de proteção, uma súplica por justiça, um grito de resistência contra todas as formas de opressão. Muitos ficaram emocionados, acompanhando com palmas e vozes entoadas em iorubá, enquanto os filhos e filhas de santo dançavam com alma lavada, rendidos ao poder do momento.

A roda de Xangô foi o ponto alto antes da entrada triunfal do Orixá. Pai Ivanildo, com sua postura ereta e olhar firme, conduziu todo o ritual com maestria e reverência, guiando os presentes em uma verdadeira jornada espiritual. A cada passo, relembrava-se a importância de manter viva a chama da tradição, mesmo diante de tantos desafios enfrentados pelas religiões de matriz africana.

Alimento Sagrado: Amalá e Acarajé

Após o momento litúrgico da Roda de Xangô, Xangô e Oyá serviram pessoalmente amalá e acarajé aos presentes — alimentos sagrados que alimentam não apenas o corpo, mas a alma. Cada pessoa que recebia a oferenda fazia seus agradecimentos e deixava suas preces no ar, num intercâmbio direto entre os homens e os Orixás. Era visível nos olhares a gratidão, a cura e a reconexão com algo maior.

O Retorno Triunfal de Xangô ao Salão



Com a chegada do Rei da Festa, a emoção tomou conta do terreiro. Enquanto Xangô, incorporado em sem Pai Ivanildo, caminhava com sua panela de fogo e gamela de amalá, todos acompanhavam em silêncio ou em cânticos de louvação. O momento mais simbólico veio quando o Orixá saiu do barracão rumo ao pátio para acender a fogueira central, num gesto potente de purificação e conexão cósmica. As labaredas subiram aos céus como mensagens visíveis de fé e esperança, iluminando não apenas o espaço físico, mas também os corações dos presentes.




          

Ao redor da fogueira, os fiéis se reuniram em círculo, sentindo na pele o calor do fogo que simboliza a justiça divina, a transformação e o renascimento. Nenhum mal, nenhuma injustiça parecia ter vez ali. Naquele espaço sagrado, só havia lugar para a luz e para a verdade.

                                      

Um Grito de Resistência

Essa Fogueira de Xangô foi muito mais do que uma celebração. Foi um grito de resistência. Foi um ato de amor à cultura negra, às tradições ancestrais, à espiritualidade livre e não colonizada. Em tempos de crescente intolerância religiosa e apagamento das culturas populares, momentos como esse são preciosos. São eles que mantêm vivas as raízes de um povo que jamais será apagado.


Pai Ivanildo de Xangô, mais uma vez, mostrou por que é referência na comunidade religiosa. Sua condução firme, respeitosa e empática une gerações, ensina, inspira e fortalece. Seu terreiro é hoje um dos maiores símbolos de resistência e orgulho afro-religioso da região Centro-Oeste.

Que Xangô Nos Proteja

Que o Senhor do Trovão continue a nos proteger, a nos guiar e a nos lembrar de que a justiça, ainda que tardia, sempre virá. E que a fogueira acesa ontem sirva como farol para todos nós — um lembrete constante de que, enquanto houver fé, haverá força; enquanto houver tradição, haverá identidade; enquanto houver comunidade, haverá resistência.

XangôVive

Que os Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união. 

Axé!

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