quarta-feira, 3 de junho de 2026

Maio de Axé, Resistência e Celebração: O Voo dos Nossos Saberes Ancestrais


Por Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ

O mês de maio consolidou-se como um verdadeiro marco de resistência, fé e afirmação da cultura afro-brasileira no Distrito Federal e entorno. Mais do que nunca, os terreiros mostraram que são espaços de acolhimento não apenas espiritual, mas social, cultural e de saúde pública. Em um mês marcado por aniversários e pela celebração da vida, nossa comunidade provou que a força do Axé é o motor que transforma a sociedade.

Saúde da População de Terreiro: Um Marco Nacional no Ilê Oyá Bagã

O grande destaque do mês foi o Lançamento Nacional da Feira de Saúde: Projeto Saberes Ancestrais dos Terreiros, sediado no Ilê Oyá Bagã, sob a sábia direção de Mãe Baiana. O evento, uma iniciativa do Ministério da Saúde em parceria com a RENAFRO NACIONAL e a RENAFRO-DF, reuniu autoridades afro-religiosas, representantes do Governo Federal e a sociedade civil organizada.

A mensagem central foi clara: a busca por políticas públicas efetivas para a saúde do povo de terreiro é inadiável. E se houve uma estrela que brilhou e emocionou a todos, foi o Zé Gotinha. Charmoso e respeitoso, ostentando seu equeté, ele fez a alegria das crianças e cravou um lema que ecoará por muito tempo em nossos ilês:

"Ser negacionista não combina com ser de Axé!"
















 

O evento foi um verdadeiro mutirão de cidadania e cuidado:

  • Saúde e Bem-estar: Aplicação de vacinas (com números expressivos de adesão), sessões de massagem e acupuntura.

  • Cidadania: Atendimentos jurídicos gratuitos para a comunidade.

  • Debate: Mesas de falas fundamentais sobre os direitos e as demandas do nosso povo.

  • Espaço Erê: Um ambiente lúdico e seguro onde as crianças, acompanhadas por psicólogas, desfrutaram de momentos de lazer e contação de histórias.

  • Cultura e Prevenção: Rodas de capoeira e a importantíssima distribuição da cartilha "Quem é de Axé não Assedia", de autoria do Ògan Àssogbá Luiz Alves.

Espiritualidade em Movimento: Tambores que Ecoam no Planalto

A religiosidade e o sagrado tomaram conta do mês com celebrações que aqueceram os corações e reafirmaram nossos laços com o Orum.

Nas giras de Boiadeiro e nos toques aos Orixás, a tradição se fez viva:

  • Homenagem a Seu Chapadão: O tradicional toque de Mãe Abadia de Ogun foi marcado por pura emoção, culminando no belíssimo casamento de sua neta, celebrado com as bênçãos de Seu Lua Branca Boiadeiro, de Pai Fiuza.

  • Águas Lindas de Goiás em Festa: Pai Aguein conduziu uma emocionante saída de Iyáwo e um toque poderoso em homenagem a Ogun. No mesmo município, celebramos o histórico primeiro toque de Ogun no Ilê Asé Iná Ojú Oba Oyó - Asé Sàngó, dirigido pela Iyá Kinanlungê, marcando a expansão e a força do nosso povo.



















  • Águas Claras - DF: A casa de Mãe Djé brilhou com toques de louvor e devoção a Ogun, Iyemonjá e Oxóssi, reunindo a comunidade em uma atmosfera de profunda conexão ancestral.


Arte, Memória e Luta Antirracista





O terreiro também é palco, e o palco também é terreiro. A cultura negra provou sua vitalidade através das artes cênicas e dos espaços de resistência.

No SESC Ceilândia (Teatro Newton Rossi), a comunidade e os alunos da rede pública foram presenteados com o espetáculo "O Almirante Negro". Com entrada franca e debates enriquecedores sobre a criação da obra e a vida de João Cândido, a peça foi um sucesso absoluto.

  • Direção: Pai Ricardo de Oxóssi.

  • Iluminação Mágica: Ogun Tonã (Valdeci Moreira).

  • Ator: Atuação brilhante de Otto Caetano.

  • Ficha Técnica de Peso: Produção de Luiz Antonio Pereira, dramaturgia de Bruno Estrela, cenografia do Atelier Cenográfico/Maria Carmem e sonoplastia/preparação vocal de Martim Filho.

Para coroar o mês, as atividades na Casa de Cultura Ilê de Noiz, em Águas Lindas de Goiás, reafirmaram o poder do matriarcado negro. Dirigido por mulheres guerreiras, o espaço é um quilombo contemporâneo na luta contra todas as formas de racismo, um local sagrado onde, em cada canto, respira-se a mais pura cultura negra. Coroando a noite teve a apresentação do SABATINA NA FAVELA, com suas letras carregadas de consciencia social e letramento racial.













Maio nos lembrou que, seja vacinando nossas crianças, batendo nossos tambores, casando nossos filhos ou contando nossa própria história nos teatros, nós estamos vencendo. Que venham os próximos meses, pois o Axé não para!