segunda-feira, 6 de julho de 2026

O Axé Ocupa a Prainha: Resistência, Saúde e Tradição na Praça dos Orixás


 

Por: Ógan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ

Enquanto os olhos de grande parte do país estavam voltados para a tela da TV acompanhando o jogo da Seleção Brasileira, o verdadeiro gol de placa do domingo aconteceu às margens do Lago Paranoá. Homens e mulheres de axé, lideranças tradicionais e defensores dos direitos humanos se reuniram na Praça dos Orixás — carinhosamente conhecida como Prainha — para a primeira edição do Circuito Praça Afro Candanga. O encontro, realizado pelo Instituto Rosa dos Ventos, marca o início de uma ocupação mensal (sempre no primeiro domingo de cada mês) voltada para a revitalização, preservação e fortalecimento do único espaço público dedicado ao Sagrado de Matriz Africana e Ameríndia no Distrito Federal.

A existência da Prainha é um marco de resistência. Enquanto as religiões cristãs contam com uma Praça da Bíblia em praticamente todas as Administrações Regionais do DF, o povo de terreiro dispõe de apenas esse território para suas manifestações coletivas. Ainda assim, o local sofre com constantes ataques de intolerância religiosa e com a omissão do poder público. Por isso, o Circuito nasce com a premissa de que o território é vivo, e que a saúde integral da nossa comunidade brota do respeito à tradição e da força dos nossos passos ancestrais.

Vozes de Axé e Alianças Políticas

A mesa de conversa, mediada com sensibilidade pela Ekédjí Stéfane, reuniu referências fundamentais do nosso território. Compuseram o debate: Mãe Baiana (representando a Renafro Nacional e Centro-Oeste),  Tata Kanamburá (Maracatu Boi Brillante), Mãe Vilcilene de Jagun (Coletivo das Iyás do DF) e o Ògan Assogbá Luiz Alves (FOAFRO-DF, Projeto Oníbodê e Coletivo Defensores do Axé).

Em uma costura firme de ideias, a comunidade debateu a urgência de políticas públicas eficazes e a resolução de problemas históricos que afetam os povos tradicionais da região. A força do encontro atraiu caravanas e representantes de Planaltina de Goiás, Samambaia, Paranoá, Águas Lindas de Goiás e diversas outras localidades do DF e Entorno.

O clamor da comunidade também foi ouvido por esferas institucionais. Representantes do Governo Federal estiveram presentes para colher as demandas e prioridades do segmento. No campo da política local, o espaço recebeu o pré-candidato ao Governo do DF, Leandro Grass, e o pré-candidato a Deputado Distrital Andrey Lemos — este último, um homem negro, ativista da saúde da população de terreiro e que carrega a responsabilidade e a vivência de ser um Ògan. Ambos foram escutar, de peito aberto, os anseios de uma comunidade que cansou de ser invisibilizada.

Cultura que Cura

Como o axé não se faz sem o corpo que dança e a voz que canta, a tarde foi coroada com a apresentação cultural do grupo Sambadeiras de Bimba, sob a regência firme e encantadora de Mãe Betinha de Oxum. O som do couro e o movimento das saias lembraram a todos os presentes que a nossa cultura é a nossa maior salvaguarda.

O Circuito Praça Afro Candanga fincou sua bandeira: a Prainha é nossa, é sagrada, e continuará sendo solo de troca, cura e resistência. Que venha o próximo primeiro domingo de agosto!


















Que o axé seja multiplicado.

Axé!

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O Sopro do Sagrado: Xangô reina absoluto em noite de intimidade e fogo no Ilê Asé Odé Erinlé

Por determinação do Orixá, tradicional Fogueira de Xangô em Águas Lindas de Goiás abriu mão do xirê público para celebrar a irmandade e a fé no recolhimento do terreiro.

Por:Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ

Há noites em que o fogo não serve para ser olhado, mas para ser sentido. Na recente celebração em homenagem a Xangô, o Ilê Asé Odé Erinlé, casa de axé localizada em Águas Lindas de Goiás e conduzida com firmeza por Pai Ricardo de Odé, nos lembrou de uma lição fundamental das religiões de matriz africana: a vontade do Sagrado está acima de qualquer tradição de palco ou expectativa pública.

A tradicional Fogueira de Xangô, que costuma atrair olhares de toda a comunidade, foi, por determinação expressa do Orixá, uma atividade interna. O que para os desatentos poderia parecer um fechamento, para os iniciados e para a comunidade de fé foi um presente. O terreiro se recolheu para si. As portas se voltaram para dentro, não para excluir, mas para aprofundar.

Xangô, o Rei da Justiça, do trovão e da pedra, reinou absoluto em sua festa. O toque dos atabaques não buscava a plateia, mas o transe, a entrega e a comunhão. A fogueira acesa no terreiro cumpriu sua verdadeira função litúrgica: a de queimar as demandas, elevar as preces e transformar a madeira em luz e calor para aqueles que dividem o mesmo chão sagrado. 

Pai Ricardo de Odé, fiel intérprete dos desígnios de sua casa, abriu espaço para que convidados escolhidos a dedo compartilhassem daquela energia. Não houve microfones abertos para o mundo, mas corações abertos para a irmandade. O axé circulou livremente entre os presentes, em um clima de muita alegria, onde o suor da dança e o calor da fogueira selavam um pacto de respeito e continuidade.

Ver uma casa de axé ter a maturidade espiritual de dizer "não" ao público para dizer "sim" ao Orixá é um ato de resistência e empoderamento real. É a prova de que o Ilê Asé Odé Erinlé está voltado para sua conexão com o Sagrado e Sua Vontade é Lei.

Que o fogo de Xangô, aceso na intimidade do ILÊ ASÉ ODÉ ERINLÉ em Águas Lindas de Goiás, continue aquecendo os corações de Pai Ricardo, de seus filhos e de todos os que tiveram o privilégio de dividir aquele espaço. O Orixá está servido, o axé está feito, e a justiça do Reino está garantida.
































Que o axé seja multiplicado.

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