domingo, 28 de junho de 2026

A CHAMA QUE UNE O AYÊ AO ÒRUN

SIMPLICIDADE E RESGATE DO SAGRADO MARCAM A FOGUEIRA DE XANGÔ EM ÁGUAS LINDAS DE GOIÁS

Por: Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ

ÁGUAS LINDAS DE GOIÁS.  Na noite do último sábado, 27 de junho de 2026, o bairro Royal Park testemunhou um daqueles momentos raros em que o tempo parece desacelerar para dar passagem à ancestralidade genuína. A tradicional Fogueira de Xangô, realizada na casa de Pai Almir de Omolú, foi um manifesto de fé, resistência e, acima de tudo, um retorno às origens dos cultos de matriz africana.

Em uma época em que grandes produções muitas vezes ofuscam a essência, a festividade de Pai Almir destacou-se justamente pelo oposto: uma beleza sutil onde a simplicidade se uniu perfeitamente ao Sagrado. O ambiente evocava a atmosfera dos toques de candomblé de antigamente — aqueles em que o brilho dos panos importados dava lugar ao foco absoluto na energia dos Orixás e na comunhão da comunidade.

Acolhimento e Tradição: O Começo de Tudo

Quem cruzava os portões do terreiro era imediatamente envolvido pelo axé da hospitalidade. O próprio dirigente da casa, Pai Almir de Omolú, fazia questão de recepcionar cada filho e visitante. Longe de qualquer formalidade rígida, o acolhimento vinha na forma de um cafezinho quente ou de um copo d'água — um gesto simples que traduz o verdadeiro espírito de família que rege os terreiros tradicionais.

No barracão, o som dos couros começou a ecoar sob a liderança do Alagbê Alex. Com maestria e profundo conhecimento dos fundamentos, ele conduziu o toque, ditando o ritmo que balançava os corpos e elevava o pensamento dos presentes. Entre os membros da casa e convidados ilustres que formavam a roda de axé, destacou-se a presença do Ògan Odé Somi, que compareceu representando a ATRACAR-GO (Associação de Terreiros e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana e Afro-Brasileira de Goiás), estreitando as frentes de união e representatividade da religião no estado.

 O Elo entre o Ayê e o Òrun


O ponto alto da noite, aguardado com respeito e devoção por todos, foi o acendimento da fogueira ritualística. Enquanto as primeiras faíscas ganhavam vida para iluminar e aquecer a noite fria de junho, o silêncio respeitoso se misturava às preces silenciosas direcionadas ao Rei de Oyó.

 "Pedíamos justiça; implorávamos para que o hálito da injustiça nunca seja baforado em nossas faces" Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ

Ao ganhar força, a fogueira crepitava intensamente, lançando suas chamas em direção aos céus em um bailado mágico, vivo e carregado de energia. Visualmente hipnotizante, o fogo não era apenas calor físico, mas um portal espiritual. Cada labareda que subia parecia carregar as preces da comunidade diretamente ao Òrun (o plano espiritual), trazendo a certeza imediata de que o Senhor da Justiça, Aquele que doa ao merecedor e cobra do devedor na justa medida, estava ali ouvindo seus filhos.

A fogueira de Pai Almir de Omolú transformou-se, de fato, no elo perfeito entre o Ayê (a terra) e o Òrun. Uma noite memorável que deixa como legado a certeza de que a força do candomblé reside na sua pureza e no respeito à memória dos que vieram antes. Kawó Kabiesilé!A CHAMA QUE UNE O AYÊ AO ÒRUN: SIMPLICIDADE E RESGATE DO SAGRADO MARCAM A FOGUEIRA DE XANGÔ EM ÁGUAS LINDAS DE GOIÁS























Que o axé seja multiplicado.

Axé!

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sábado, 27 de junho de 2026

O Eco dos Tambores em Águas Lindas: A Noite de Magia e Luta nos 35 Anos de Oxóssi de Pai Ricardo

Por: Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ

Por um Jornalismo de Axé e Resistência

No último dia 20 de junho, as terras de Águas Lindas de Goiás não apenas testemunharam um toque de candomblé; elas vibraram sob o peso da ancestralidade, do amor e de uma história que completa trinta e cinco anos de pura devoção. O Ilé Asé Odé Erinlé abriu suas portas para celebrar os 35 anos de Pai Oxóssi na vida de Pai Ricardo. O que se viu ali foi a manifestação mais pura do Sagrado, uma noite tecida com fios de emoção, realeza preta e compromisso social.

Conduzido com a maestria e o respeito que a tradição exige por Pai Alan Baloni, o toque foi um verdadeiro banquete espiritual. O couro dos atabaques conversava diretamente com os corações presentes, preparando o terreno para uma noite que ficaria marcada na memória de toda a comunidade afro-religiosa da região.

O Altar das Matriarcas: A Força Feminina no Terreiro

A celebração contou com o brilho e a chancela de diversas autoridades civis e religiosas, mas o ponto alto da representatividade institucional e espiritual esteve na presença imponente das Matriarcas. do Ilê Axé Opó Afonjá - RJ. O axé do Rio de Janeiro cruzou fronteiras para abençoar a festa, trazendo a linhagem e o peso histórico do Opó Afonjá através de:

  • Ekédjí Mãe Sandra, a Iyá Obá

  • Iyá Conceição de Ayrá - Iyá Egbé

  • Iyá Marilene de Osun

Ver essas mulheres ocupando o espaço de honra foi um lembrete vivo de que o candomblé é, essencialmente, uma religião de matriz matriarcal, onde o colo, a sabedoria e o rigor dessas mães sustentam o mundo.

Discurso de Resistência: "É Preciso Enegrecer o Candomblé"

Se as lágrimas marejaram os olhos dos presentes pela beleza do rito, as palavras de Pai Ricardo incendiaram as consciências. Em um discurso profundamente emocionado, o babalorixá olhou para trás e agradeceu a cada companheiro, companheira e filho de santo que, com parceria e apoio, ajudou a pavimentar sua caminhada de mais de três décadas.Entre as pessoas que muito ajudaram e ajudam Pai Ricardo em sua jornada podemos citar Mãe Abadia de Ogun, Pai Aguein e Mãe Vilcilene de Jagun que sempre estiveram ao lado de Pai Ricardo em todas as vezes que suas presenças fossem solicitadas ou necessárias, extendendo o sentimento de gratidão aos filhos de suas casas. Presente também membros da diretoria da ATRACAR-GO, FOAFRO-DF, COLETIVO DE WHATSSAP DEFENSORES DO AXÉ e PROJETO ONÍBODÊ.

No entanto, o ápice de sua fala foi o chamado à luta. Pai Ricardo bradou pela urgência de manter os terreiros como portos seguros para o povo preto, transformando cada casa de axé em uma trincheira contra o racismo, a intolerância e o preconceito.

"Não podemos permitir que o negro perca seu espaço em uma religião que é originariamente negra. É preciso enegrecer o candomblé todos os dias!" — declarou o sacerdote, sob aplausos calorosos.

O Rei das Matas Ocupa o Seu Trono

A expectativa pela chegada do dono da festa era quase palpável. Após as saudações das autoridades, o salão silenciou por um milésimo de segundo para, logo em seguida, explodir em pura alegria: Pai Odé se fez presente.

A chegada do caçador trouxe uma atmosfera de intensa magia. Com a generosidade que lhe é cabida, a divindade logo começou a trazer seus convidados para a roda, estendendo a realeza espiritual a todos os presentes.

O Reencontro e o Afeto

Enquanto a corte se preparava nos bastidores para a grande apresentação, o salão viveu um breve e terno intervalo. Foi o momento em que o sagrado deu espaço ao calor humano: abraços apertados, sorrisos largos e lágrimas de reencontro selaram a cumplicidade daqueles que dividem a caminhada na fé.

O Ápice: O Rum de Pai Odé

Ao som dos atabaques ritmados, palmas ritmadas e gritos de louvação que ecoavam até as estrelas de Goiás, Odé ressurgiu lindo, imponente e ladeado por sua corte. O ápice da noite se deu no Rum de Pai Odé com seus convidados — uma dança sagrada que reconectou o visível e o invisível em uma coreografia de pura energia e axé.

Um Banquete para o Rei

Após o encerramento dos ritos religiosos, a celebração da vida e da fartura continuou na mesa. Os presentes foram agraciados com um delicioso jantar preparado com todo o carinho e axé por Pai Marcio de Oyá, que fez questão de presentear o grande caçador e seu irmão de santo com esse banquete inesquecível.

A noite no Asé Odé Erinlé não foi apenas uma festa de aniversário de santo; foi uma afirmação política, um abraço ancestral e a certeza de que, enquanto o tambor ecoar e as lideranças se posicionarem, a cultura afro-brasileira permanecerá viva, preta, altiva e inabalável.

Okê Arô, Pai Oxóssi! Que seus 35 anos de axé continuem apontando a flecha da prosperidade e da justiça para todos nós!

Vejam abaixo algummas fotos do Toque em Homenagem aos 35 anos de Pai Ricardo de Oxóssí:


































































































































Que o axé seja multiplicado.

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