Em Águas Lindas de Goiás, iniciados de Ògún e Obá receberam seus Orunkós em uma cerimônia marcada pela energia, união inter-terreiro e a força do convívio familiar. "O Axé se faz na partilha", resume a jornada que terminou em uma farta feijoada de terreiro.
Por Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ
Águas Lindas de Goiás, 29 de junho de 2026.
Há quem olhe para o terreiro e veja apenas o ritual; mas aqueles que conhecem a profundidade do Axé sabem que o chão batido (ou a sala de santo) é o palco onde a ancestralidade abraça a contemporaneidade. Na tarde e noite de ontem, 28 de junho, o Ilê Asé Ewe, casa liderada pelo zeloso Pai Isneilton de Agué, em Águas Lindas de Goiás, tornou-se o epicentro de uma das manifestações mais belas e empoderadas da nossa religiosidade: o toque de saída de novos Iyáwós.
Quando os atabaques começaram a soar, não era apenas o couro sendo batido. Era o coração da comunidade ditando o ritmo da vida. A saída dos iniciados para Ògún e Obá foi um espetáculo de energia crua, transbordante e de um carinho indescritível para com o Sagrado. Ver a juventude e a força desses filhos caminhando em direção ao seu destino religioso é a prova viva de que a resistência afro-brasileira não apenas sobrevive; ela dança, ela canta e ela se renova.
A Revelação do Sagrado Nome
O momento mais denso e místico da cerimônia foi a revelação dos Orunkós— os nomes sagrados que conectam o iniciado à sua essência divina. Para guiar esse passo, a casa contou com padrinhos de peso, que representaram a sabedoria dos mais velhos.
Para o Iyáwó de Ògún, o senhor dos caminhos e do ferro, o padrinho foi Pai Udy de Omolú, trazendo a seriedade e o cuidado necessário para quem lida com a energia que abre as estradas. Já para a Iyáwó de Obá, a guerreira das águas doces e da força inabalável, o padrinho foi Pai Mylá (Nicolas), que conduziu o ritual com a delicadeza e a firmeza que a Senhora das batalhas exige. A entrega dos Orunkós não foi apenas um protocolo; foi um ato de amor, onde cada nome sussurrado e depois celebrado era um novo capítulo escrito na história do Axé.
A Força da União: O Axé que Acolhe
Nenhuma casa de santo é uma ilha, e a verdadeira marca do povo de terreiro é a união. O toque de saída contou com a presença de grandes autoridades religiosas que, com suas vestes brancas e seus fios de contas, deram o suporte e o axé que a ocasião pedia.
A presença de Pai Ricardo de Oxóssí, Pai Omissilê e Pai Ogunifé encheu a casa de dignidade e representatividade. Eles não estavam ali apenas como convidados, mas como pilares de sustentação, demonstrando que o Axé do Entorno do Distrito Federal e de Goiás é uma rede forte, coesa e que se protege. O abraço entre os mais velhos e os novos Iyáwos foi a imagem mais poderosa da noite: a tradição garantindo o futuro.
O Convívio: Lágrimas, Famílias e a Gastronomia de Terreiro
O que torna o toque de saída tão humanizado é a presença das famílias. Mães, pais, irmãos e amigos, muitos deles ainda aprendendo a decifrar os códigos do sagrado, acompanharam cada passo, cada dança, cada giro. Houve lágrimas de emoção, houve o sorriso de quem vê um filho ou filha finalmente "nascido" para o santo. O Axé se faz no olhar de orgulho da família que, muitas vezes, precisou enfrentar o preconceito para estar ali, sentada nas cadeiras de plástico, batendo palma para a grandeza de sua própria sangue.
E como toda grande celebração de matriz africana exige, o espírito precisa ser aterrado no convívio, na mesa farta. Após o toque, quando o eco dos cânticos ainda pairava no ar, os presentes foram recebidos com uma deliciosa e reconfortante feijoada.
A gastronomia de terreiro é um capítulo à parte na nossa cultura. Aquela feijoada não era apenas comida; era comunhão. Era o axé de Ògún (no fogo, no ferro da panela) e a generosidade de Obá regando o encontro. Comer juntos, dividindo o mesmo prato, rindo e relembrando os momentos do toque, é o que fortalece os laços do Egbé (comunidade). É a culinária de terreiro afirmando seu lugar legítimo como patrimônio afetivo e gastronômico do Brasil.
O Ilê Asé Ewe, sob a bênção de Pai Isneilton de Agué, nos lembrou ontem que a religiosidade de matriz africana é, acima de tudo, um lugar de pertencimento, de alegria e de muita, muita energia.
Que Ògún abra os caminhos desses novos Iyáwós. Que Obá lhes dê a força para as batalhas. E que o Axé de todos nós se renove a cada toque, a cada saída, e a cada feijoada partilhada.
Que o axé seja multiplicado.
Axé!
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