quinta-feira, 25 de junho de 2026

A Coroa do Saber: Maceió se torna o epicentro da resistência e da sabedoria ancestral com o Encontro de Mestras e Mestres

Por: Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONIBODÊ 

Há um movimento silencioso, mas estrondoso, que não ecoa apenas nos tambores dos terreiros ou nas rodas de capoeira, mas que agora ressoa nas salas de aula, nas políticas públicas e no coração do Estado brasileiro. De 1º a 3 de julho, Maceió, em Alagoas, deixa de ser apenas um ponto no mapa para se tornar o santuário vivo do Notório Saber.

No Centro Cultural Reitor João Sampaio (Cesmac), não estamos falando apenas de um evento. Estamos testemunhando a consagração oficial da nossa memória. O Encontro de Mestras e Mestres do Notório Saber no Brasil, organizado pelo Ministério da Cultura (MinC) em diálogo com o Ministério da Educação (MEC), é a prova contundente de que a nossa voz, antes marginalizada, hoje dita as regras do jogo cultural e educacional.

O Sagrado encontra a Academia

Para nós, filhos e filhas das tradições, saber que universidades, institutos federais e gestores públicos estão sentados à mesma mesa que nossas Ialorixás, Babalorixás, Mestres de Capoeira, Parteiras, Curandeiras e Guardiões das Ervas é uma vitória histórica. Não se trata apenas de "incluir" a cultura popular; trata-se de reconhecer que nós somos a base.

A programação deste encontro vai muito além de debates técnicos sobre direitos autorais e políticas públicas. Ela é um ato de empoderamento coletivo. Ao discutir o reconhecimento dos conhecimentos tradicionais dentro das instituições de ensino superior, estamos dizendo ao mundo que a ciência da vovó tem valor acadêmico, que a cura pelas folhas tem rigor metodológico e que a oralidade é uma biblioteca viva que precisa ser protegida e celebrada.

Uma Rede de Proteção e Poder

Um dos momentos mais vibrantes será a Assembleia de Criação da Rede Nacional de Universidades e Institutos para o Notório Saber. Imagine a força disso? Uma teia nacional que conecta o poder público às raízes. Isso significa mais recursos, mais visibilidade e, principalmente, mais respeito para quem mantém a chama acesa há séculos, muitas vezes na clandestinidade ou sob o peso do preconceito.

Mestras e mestres de todas as regiões do país estarão lá. Não como convidados exóticos, mas como protagonistas. Eles levarão a riqueza das manifestações alagoanas e de todo o Brasil para mostrar que a diversidade cultural não é um acessório, mas a própria essência da identidade brasileira.

Por que isso importa para a nossa comunidade?

Porque cada vez que um conhecimento tradicional é registrado, protegido e valorizado academicamente, estamos blindando nossos terreiros, nossas comunidades quilombolas e nossos grupos culturais contra o apagamento histórico. Estamos garantindo que os jovens possam olhar para seus mais velhos não com vergonha imposta pela sociedade, mas com orgulho e reverência.

Este encontro em Maceió é um grito de liberdade. É a afirmação de que o nosso saber é notório, é necessário e é insubstituível. Que as águas de Oxum banhem este encontro, que Exu abra os caminhos do diálogo e que Ogum proteja esta luta.

Vamos celebrar. Vamos ocupar. Vamos ensinar. Porque o futuro passa, obrigatoriamente, pela sabedoria dos nossos ancestrais.


Que o axé seja multiplicado.

Axé!

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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Aula Vivencial sobre as Folhas do Sagrado.

 CIÊNCIA E ANCESTRALIDADE: O saberes que brotam da terra.


Por Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ

No último final de semana, o Ilê Asé Odé Erinlé Ty Oyá, em Águas Lindas de Goiás, transformou-se em um espaço de diálogo profundo e partilha de saberes. Sob a condução de Pai Ricardo de Odé e organização de Ogunifé (Udi Lyncon), o terreiro acolheu alunos das turmas de Botânica e Antropologia da Universidade de Brasília (@unb_oficial) para uma potente Aula Vivencial sobre as Folhas do Sagrado.

Na tradição de matriz africana, a máxima é ancestral: “Kosi ewe, kosi Orixá”sem folha, não há Orixá. Os estudantes puderam vivenciar a importância vital das plantas na afro-religiosidade, compreendendo suas aplicações litúrgicas, medicinais e os rituais que envolvem seus procedimentos. Uma verdadeira imersão onde o laboratório cedeu espaço ao chão sagrado e à tradição oral.

Muito além da botânica: O encontro não se limitou ao estudo vegetal. Sentados em roda, Pai Ricardo de Odé costurou a sabedoria das folhas com debates urgentes da nossa sociedade. Foram pautados temas fundamentais como:

  • Ancestralidade: A conexão viva com os que nos antecederam.

  • Racismo Religioso: O combate à intolerância por meio do conhecimento.

  • Saúde e Educação: O papel do terreiro como espaço histórico de cura integral, acolhimento e preservação cultural.

Quando a academia se curva ao saber tradicional, a ciência ganha profundidade e a história se repara. O Ilê Asé Odé Erinlé Ty Oyá segue firme como um farol de resistência, educação e preservação do patrimônio imaterial do nosso povo.

Modupé, Pai Ricardo, pela generosidade em partilhar o Axé! 










































Que o axé seja multiplicado.

Axé!

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Ilê Magbá Biolá se transforma em palco de resistência política e espiritual


No coração pulsante de Brasília, terra onde o poder político se concentra e onde as decisões que moldam o país são tomadas, um encontro histórico aconteceu no Ilê Magbá Biolá, sob a direção das respeitadas Iyá Mãe Djé de Nanã e Iyá Mãe Ruth de Ogun. Lideranças Afro Religiosas da Capital Federal e do Entorno se reuniram em um ato de empoderamento coletivo, colocando em pauta não apenas suas demandas ancestrais, mas traçando novos caminhos para a participação política de suas comunidades no cenário eleitoral que se desenha.

A articulação do encontro foi conduzida por Mãe Baiana, que, em diálogo profundo com Ògan Assogbá Luiz Alves, construiu uma proposta audaz: trazer perspectivas renovadas para a comunidade afro religiosa diante do complexo tabuleiro político da região. O que se viu no Ilê Magbá Biolá foi muito mais do que uma reunião — foi a materialização do axé como ferramenta de transformação social.

A força da união: representatividade que ecoa

O encontro contou com a presença robusta de diversas organizações que compõem a trama viva da resistência afro religiosa no Distrito Federal:

RENAFRO-DF** (Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras)

FOAFRO-DF 

PROJETO ONÍBODÊ

DEFENSORES DO AXÉ

Jovens de Axé da RENAFRO-DF**

Homens de Axé da RENAFRO-

Coletivo As Iyás do DF e Entorno

ATRACAR

Sociedade Civil Organizada

A pluralidade de vozes presentes — desde os jovens que carregam o fogo do axé até as matriarcas que preservam a sabedoria ancestral — demonstrou que o movimento afro religioso de Brasília está maduro para ocupar espaços de poder com a mesma determinação com que ocupa seus terreiros.

Das prioridades comunitárias à estratégia política: o axé como instrumento de cidadania

A pauta do encontro foi construída a partir das prioridades e demandas das comunidades. Longe de serem meros espectadores do processo político, as lideranças presentes assumiram seu papel de protagonistas, mapeando as necessidades concretas de seus terreiros, seus filhos e filhas de santo, e a população negra que sofre com o racismo estrutural e a intolerância religiosa. Entre as discussões ficou decidido a reestruturação do FOAFRO-DF e quanto instrumentos de luta no combate ao RACISMO RELIGIOSO.

A transição para a análise política da conjuntura atual foi natural. As lideranças debateram com rigor o cenário eleitoral, examinando os perfis dos pré-candidatos aos mandatos eletivos no próximo pleito. A proposta foi clara: compreender com profundidade quem são os políticos que se apresentam como representantes do povo, quais suas trajetórias, compromissos e, sobretudo, sua relação com as pautas afro, antirracistas e de respeito às religiões de matriz africana.

Não queremos mais ser apenas objeto de políticas públicas — queremos ser sujeitos que as concebem, exigem e fiscalizam, ecoou entre as conversas no terreiro.

Documento de posicionamento: o axé se torna palavra escrita

Das discussões surgirá um documento oficial que consolidará as decisões e posicionamentos do encontro. Este texto não será apenas um registro interno: será apresentado à Comunidade Afro Religiosa e a todos os interessados no fortalecimento da democracia participativa e na luta contra a intolerância religiosa.

O documento representa um marco. É a materialização do entendimento de que a espiritualidade afro não se separa da cidadania, e que o terreiro é também um espaço de formação política, de conscientização e de organização comunitária.

A confraternização: o axé que alimenta

Nenhum encontro de matriz africana estaria completo sem o momento de partilha. O almoço servido no Ilê Magbá Biolá foi gostoso e farto, fruto de uma colaboração coletiva onde cada participante trouxe um prato e bebidas. Mais do que alimentar o corpo, esse gesto simbolizou a essência do candomblé e das religiões afro-brasileiras: a comunhão, o compartilhamento, a reciprocidade.

Cada prato carregava histórias, sabores de diferentes terreiros, memórias afetivas e a resistência cultural que se mantém viva através da culinária sagrada e da comida de axé. A confraternização selou o compromisso: a luta política é também uma celebração da vida, da ancestralidade e da esperança.

O que vem por aí

O encontro no Ilê Magbá Biolá sinaliza uma nova fase para as lideranças afro religiosas de Brasília e entorno. Longe de se restringirem aos espaços de culto, elas se organizam para intervir ativamente no processo político, exigindo respeito, representatividade e políticas públicas que atendam suas demandas históricas.

Com o documento de posicionamento em construção e a mobilização das diversas frentes organizativas, o movimento afro religioso da capital federal se coloca como ator político indispensável para as eleições que se aproximam. O axé, que há séculos resistiu à escravização, ao racismo e à intolerância, agora também se organiza para conquistar espaços no Congresso Nacional, na Câmara Legislativa e nas câmaras municipais da região.

O Ilê Magbá Biolá, sob a guarda de Mãe Djé de Nanã e Mãe Ruth de Ogun, foi mais um terreiro neste dia: foi um parlamento de ancestralidade, onde o sagrado e o político se encontraram para traçar novos caminhos.

Axé às lideranças, axé à resistência, axé ao futuro que se constrói coletivamente.

Veja aqui as fotos do encontro.

































Laroyê, Seu Tranca Ruas! Ora Yê Yê Ô, Oxum!

Que o axé seja multiplicado.

Axé!

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