sexta-feira, 17 de abril de 2026

O Peso do Tempo no Axé: Quando a Ancestralidade Envelhece e a Comunidade Desvia o Olhar

Por: Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ

Por que cultuamos os mortos e esquecemos dos vivos?

Há uma cena que se repete nos terreiros de Umbanda e nos Ilês de Candomblé de todo o Brasil, e ela deveria constranger quem tem fé no corpo. Enquanto as oferendas são dispostas com rigor para os que já partiram — ovos, acaçás, flores frescas, água de coco —, do outro lado do quintal, ou em um cômodo esquecido da casa, senta-se o corpo envelhecido de quem ainda respira. É o Griô do terreiro. O Babalorixá de joelhos duros. A Iyalorixá de mãos trêmulas que já embalaram tantos filhos de santo. A pessoa que, literalmente, carrega na memória a linha de um toque que não está escrito em lugar nenhum. A voz que sabe, de cor, a história de uma nação (nzo) inteira. E, no entanto, aí está ele, ou ela, às vezes sem o remédio da pressão, sem a fralda geriátrica, sem o olhar atento de quem deveria zelar.

A pergunta que precisa ecoar nos pátios sagrados não é simples. Ela é incômoda, cortante, e exige resposta imediata: a nossa comunidade afro-religiosa, tão eloquente no discurso sobre ancestralidade e reverência aos mais velhos, tem praticado o que prega? Ou o respeito ao idoso se transformou em mera teoria panfletária — um discurso retórico para nos diferenciarmos de segmentos que historicamente desprezaram a velhice negra?

O Corpo que Envelhece e a Casa que Treme

Não dá para falar de etariedade no universo afro-brasileiro sem reconhecer o paradoxo brutal que vivemos. Somos herdeiros de cosmologias onde a velhice é sinônimo de sabedoria, onde A Orixá Nanã, entre outras manifestações da divindade, carrega o mistério da maturidade última, do início e do fim. O tempo, no pensamento africano tradicional, não é linear e descartável. Ele é acumulativo. Quanto mais anos, mais axé. Quanto mais cicatrizes, mais história. Mas a realidade material bate à porta — e ela bate forte.

O avanço da idade no Brasil já é, por si só, um cenário de guerra para a população negra. Dados cruciais mostram que o idoso negro enfrenta taxas de desemprego maiores, aposentadorias mais humilhantes, acesso precário à saúde e uma velhice marcada pelo assistencialismo forçado. Agora, transporte isso para dentro dos terreiros. Muitos dos nossos mais velhos não possuem renda formal. A sobrevivência deles dependia — e ainda depende — da dádiva dos filhos, da mesada simbólica de quem consulta, da venda de artesanato sagrado. Quando o corpo fraqueja e a memória começa a dar sinais de esquecimento, o que era sustento transforma-se em dependência.

E é aí que mora a tragédia: o abandono.

Não o abandono gritado, nem sempre. É o abandono silencioso. É o Griô que deixa de ser consultado para as decisões importantes do terreiro porque “está lento”. É a Iyakekerê (mãe de menor hierarquia, mas ainda anciã) que é afastada da cozinha sagrada por medo de que “se queime” ou “esqueça o ponto do molho”. É o ancião que, por não mais conseguir dançar o aguerê com a mesma ginga, é colocado na cadeira na festa, mas não na mesa das conversas que definem o futuro da casa. É a exclusão sutil, a invisibilidade que se instala sob o véu do “cuidado” — quando, na verdade, é pura retirada de poder.

A Diferença entre Cultuar e Cuidar

Aqui é preciso separar o joio do trigo com a honestidade de quem ama a tradição. Existem, sim, comunidades que estão fazendo o trabalho de forma linda e exemplar. Filhos e filhas de santo que criaram verdadeiras redes de apoio, que garantem a manutenção médica dos pais e mães velhos, que adaptam os espaços físicos dos terreiros para acessibilidade, que gravam em áudio e vídeo os relatos dos anciãos antes que o tempo os leve. Isso existe, graças aos Orixás.

Mas seria desonestidade intelectual fingir que isso é a regra.

Em muitos casos, o que se vê é uma retórica inflamada sobre o valor do “respeito aos mais velhos” sendo usada como marca identitária “nós, negros de terreiro, respeitamos nossos velhos” enquanto, na prática cotidiana, o idoso é visto como fardo. A cobrança é velada: “Mãe, você já está muito velha para isso”. Ou pior: a substituição acelerada, onde a nova geração, sedenta por protagonismo, esquece que o lugar do jovem no sagrado não é ocupar o trono antes da hora, é justamente segurar a base para que o trono não caia.

O abandono material é apenas a face mais visível. O mais doloroso é o abandono simbólico. É quando o ancião deixa de ser visto como portador de saber para ser tratado como uma criança grande. Quando suas decisões são contestadas não por divergência de fundo, mas pelo simples fato de que ele “já não entende mais os tempos de hoje”. Como se o tempo de hoje não fosse, justamente, o resultado de todo o tempo que ele viveu.

Griô como Pessoa, não como Conceito Decorativo

Precisamos falar sobre o Griô com a realidade que o termo exige. No contexto afro-brasileiro, adaptamos a figura do griot africano para nomear aqueles que são a memória viva da casa. Mas há um perigo grave em mitificar a figura do ancião enquanto se nega sua humanidade plena. O Griô não é uma estátua. Ele não é um ornamento que enfeita o terreiro e dá credibilidade histórica à nova direção. Ele é um corpo que dói, que teme, que sente frio, que precisa ser ouvido quando fala de coisas além do sagrado — como a solidão, como a saudade de quem já foi, como o medo de ser esquecido.

E o abandono, quando acontece, tem um gosto especialmente amargo dentro das religiões de matriz africana. Porque nós, que acendemos vela para o Egun, que pomos comida na esã ou no igbá Orixá, que dizemos que os Ancestrais estão vivos no outro plano e nos guiam... nós, de todos os segmentos sociais, deveríamos ser os últimos a deixar um ancião de verdade — de carne, osso e história — à margem.

Não estamos falando apenas de caridade. Estamos falando de coerência espiritual. É impossível ter um culto robusto aos ancestrais mortos enquanto se abandona o ancestral vivo.

E os Jovens? Onde está o Erro?

Não dá para colocar toda a culpa nos jovens. A questão é estrutural. Vivemos num país que nos ensinou a desprezar a velhice. Um país onde o corpo negro envelhecido é triplamente invisibilizado: por ser negro, por ser velho e, muitas vezes, por ser pobre e religioso de terreiro. Os jovens que entram para o Candomblé e a Umbanda hoje chegam com fissuras formadas por essa sociedade. Eles reproduzem, sem perceber, o racismo etário (ageísmo) que aprenderam no mundo de fora.

Mas é justamente aí que entra o papel transformador da comunidade afro-religiosa. Se o terreiro não consegue ser um espaço de refúgio contra a lógica descartável do capitalismo, da produtividade e do vigor juvenil, então falhamos na nossa missão mais profunda. A casa de santo precisa ser um lugar onde a etariedade é celebrada, não tolerada. Onde o ancião não é “ainda útil”, mas é sagrado porque envelheceu.

A mudança começa na escuta ativa. Na criação de rodas de conversa onde o mais velho fala e o mais novo ouve — de verdade, sem interromper para corrigir. Na distribuição de recursos que garanta dignidade material. Na resistência em aposentar simbolicamente quem ainda tem fôlego para contribuir. E na coragem de questionar líderes de terreiro que, no afã de manter o “funcionamento” da casa, esquecem que o terreiro não é empresa. É família de axé. E família não se demite do seu velho.

Um Chamado ao Axé que Acolhe

Ancentralidade não é só o culto ao passado. Ela é, acima de tudo, a responsabilidade com o presente que está se tornando passado aos nossos olhos. Cada Griô que hoje é esquecido no canto é um pedaço do axé coletivo que se perde. E quando ele partir, não adiantará chorar, fazer ojubô, axêxê e dizer que ele foi importante. A hora de honrar é agora, enquanto ele respira.

A comunidade afro-religiosa brasileira precisa fazer um rigoroso exame de consciência. Estamos criando políticas internas de cuidado com o idoso? Estamos destinando parte da renda do terreiro para a saúde dos nossos mais velhos? Estamos incluindo seus nomes nas decisões, mesmo que demorem mais para se expressar? Estamos ensinando os jovens a ver no corpo envelhecido o próprio Orixá, e não apenas um estorvo administrativo?

Se a resposta for não, então que seja dito sem acusações vazias, mas com o compromisso de mudar. Que cada filho e filha de santo leia este texto e olhe para o canto do quintal. Lá está, talvez, o verdadeiro teste do nosso axé. Não está no número de iniciados. Não está na beleza das festas. Está na forma como olhamos para quem nos precedeu.

Porque, no fim das contas, a forma como tratamos nossos vivos velhos é exatamente a forma como estamos ensinando o futuro a nos tratar. E quando formos nós, sentados naquele canto, o silêncio que nos rodear será o mesmo que deixamos ecoar hoje.

Que o silêncio seja de presença. Que o cuidado seja de verdade. E que a etariedade, dentro dos nossos terreiros, deixe de ser um problema para se tornar a nossa mais pura e legítima ancestralidade em movimento.

Axé!

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terça-feira, 14 de abril de 2026

O Axé Ocupa a Urna: Por que nossa fé precisa de voz (e de memória) na política

 

O Axé Ocupa a Urna: Por que nossa fé precisa de voz (e de memória) na política

Por: Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ

"Religião e política não se misturam". Quantas vezes ouvimos essa frase ecoar dentro de nossos terreiros, barracões e casas de reza? Por décadas, essa máxima foi cultivada como um dogma de preservação, uma forma de manter o sagrado longe das disputas muitas vezes "sujas" do poder institucional. Mas o tempo passou, e a realidade nos deu um golpe de despertar: enquanto nós nos silenciamos para preservar o mistério, outros grupos ocuparam as cadeiras do poder e transformaram sua fé em ferramenta de cerceamento da nossa.

O resultado está estampado nos jornais e nas atas das Casas de Leis, da Câmara Municipal mais remota ao Congresso Nacional. As chamadas "Bancadas da Bíblia" crescem, legislam e, não raramente, buscam meios de asfixiar o livre exercício das religiões de matriz africana. Hoje, somos reféns de decisões tomadas por quem não nos conhece — ou pior, por quem nos quer invisíveis.

O Despertar para a Representatividade

É neste cenário de urgência que surge a necessidade da comunidade afro-religiosa se impor. Não se trata apenas de "querer poder", mas de garantir a sobrevivência. Precisamos de gente nossa onde as leis são feitas. Precisamos de quem entenda que um terreiro é, antes de tudo, um centro de acolhimento social, de preservação ambiental e de resistência cultural.

No entanto, o ano eleitoral traz consigo um fenômeno perigoso: o surgimento de "aliados de ocasião".

Entre o Discurso e a Trajetória: Onde eles estavam?

Quando o som do nosso atabaque foi perseguido, onde estavam aqueles que hoje pedem o nosso voto? Quando fomos atacados fisicamente, quando nossas casas foram invadidas ou quando o racismo religioso tentou nos impedir de usar nossas contas e nossos brancos nas ruas, onde estavam os "simpatizantes" que agora aparecem para a foto?

É preciso ter coragem para dizer o óbvio: não basta ser afro-religioso ou se dizer aliado; é preciso ter compromisso.

Não podemos aceitar candidatos que usam o nosso axé como um adereço de campanha. A política para o povo de santo exige história. Exige ter "colocado a cara a tapa" quando o cenário não era de festa, mas de luta. O voto não pode ser entregue a quem nunca pisou no barro da nossa resistência ou a quem se calou diante das investidas do fundamentalismo.

A Política como Extensão do Terreiro

A política institucional deve ser uma extensão do que já vivemos no Egbé (comunidade): o cuidado com o outro, a distribuição de recursos, o respeito à ancestralidade e a defesa do território.

Precisamos de representantes que não tenham vergonha da sua fé, mas que, acima de tudo, tenham uma trajetória que valide sua fala. O "simpatizante" de última hora é aquele que, após a eleição, esquece o caminho do terreiro e se omite nas votações que decidem o destino das nossas tradições. Aquele que vai ao seu terreiro escondido pela noite, jamais assumirá um papel ou fará um discurso em uma tribuna de uma Casa de Leis em sua defesa. 

O Nosso Papel na Urna

Chegou a hora de subverter a lógica. Se eles se organizam, nós também podemos. Mas nossa organização deve passar pelo filtro da verdade.

Pergunte ao seu pré-candidato:

  • Qual é a sua história de luta contra o racismo religioso?

  • Quais ações concretas você já realizou em defesa das comunidades tradicionais de matriz africana?

  • Onde você estava nas manifestações em que clamamos por nossos direitos básicos?

O Axé é movimento, é ação. E na política, nossa ação deve ser consciente. Que nossas mãos, as mesmas que batem o tambor e preparam o axé, saibam escolher quem realmente caminha ao nosso lado. Porque, no final do dia, a política decide se poderemos ou não continuar exercendo nossa fé em liberdade.

Votar em quem tem trajetória não é apenas uma escolha política; é um ato de preservação do nosso sagrado.

Axé!

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quinta-feira, 9 de abril de 2026

O Axé como Projeto de Futuro


*O Axé nas Urnas: Nossa Ginga Política e o Horizonte de 2026 contra o Racismo Religioso*

Por Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ

Para nós, o terreiro é preservação de memória ancestral e centro de apoio comunitário. Chegamos a uma encruzilhada histórica: nossa fé precisa ocupar a política para garantir o direito de existir hoje e nos anos que virão.

*Radiografia da Violência e a Métrica da Impunidade*

Os números são contundentes: entre 2022 e 2023, as denúncias de violência religiosa saltaram *80%*. No Rio de Janeiro, o "narcopentecostalismo" transforma a perseguição em estratégia de domínio territorial. Em São Paulo, o volume de agressões verbais e exclusão institucional lidera as estatísticas. 

Contudo, enfrentamos o *"Funil da Impunidade"*: enquanto 100% das denúncias são registradas, *menos de 5% resultam em condenação*. A justiça brasileira enfrenta o desafio de converter a *Lei 14.532/2023* em punições reais contra o racismo religioso cotidiano.

*O Horizonte de 2026: Planejamento e Resistência*

Não estamos apenas reagindo; estamos planejando o futuro. O governo federal estabeleceu o *Plano de Dados Abertos 2024-2026*, uma ferramenta crucial para que cada ataque a um terreiro saia das sombras da subnotificação e entre nas estatísticas oficiais. Para o ano de 2026, já estão programadas campanhas nacionais de Direitos Humanos e editais de cooperação internacional que visam fortalecer a rede de proteção às comunidades tradicionais.

Este planejamento é o nosso escudo contra retrocessos, como as tentativas de setores fundamentalistas de retirar a *História da África (Lei 10.639/03)* das escolas. O monitoramento contínuo entre *2024 e 2026* será decisivo para avaliar se as políticas de reparação e os programas de proteção a lideranças — majoritariamente mulheres negras e idosas — serão suficientes para frear a violência física e digital.

*O Voto como Mandinga de Transformação*

Participar do processo eleitoral é um ato de sobrevivência. Precisamos de representantes que garantam que os recursos e campanhas previstos até *2026* cheguem à ponta, protegendo o atabaque e o território. 

A política é o instrumento para:

*   *Consolidar o Plano de Dados Abertos*, combatendo a invisibilidade das nossas dores.

*   *Garantir a execução dos editais de 2026*, fomentando a cultura e a segurança nos terreiros.

*   *Fortalecer o SUS*, respeitando nossas práticas de cura tradicionais.

O aumento das denúncias é um sinal de despertar. O racismo religioso tenta silenciar o axé, mas nossa resposta é o fortalecimento das redes e a ocupação das urnas. 

*Nossa ginga é política.* 

Em cada voto, depositamos a esperança de um Brasil onde, em *2026* e além, o branco de nossas vestes brilhe sem medo. O axé resiste, o axé vota, o axé transforma.

Que os Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união. 

ABAIXO UM INFOGRÁFICO SOBRE O RACISMO RELIGIOSO



Axé!

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quarta-feira, 1 de abril de 2026

No Ilê Axé Odé Erinlé Ty Oyá a Natureza faz sua visita diária

 E no Ilê Axé Odé Erinlé ty Oyá dirigido por Pai Ricardo de Oxóssi, a natureza faz sua visita diaria. Um espetáculo mesclado de amor e proteção. É maravilhoso vermos que a natureza se sente à vontade para chegar e se deliciar de nossas frutas. Viva a Natureza! Viva Oxóssí. 




Que os Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união. 

Axé!

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quinta-feira, 26 de março de 2026

A cartilha "QUEM É DE AXÉ NÃO ASSEDIA!" INDO MUITO ALÉM DOS TERREIROS

 


Por Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ

Esta semana fiz uma  viagem à Goiania tive a grata satisfação de me encontrar com esse ícone da política de Goiás, uma mulher de luta e com a força de quem sabe exatamente da força que tem. Conhecer a Vereadora Ava do PSB em Goiânia me foi um marco, sempre a acompanhei pelos pod-casts entrevistas com sua fala, fico feliz de saber que a teremos ao lado de outras pessoas engajadas em nossa luta por um mundo melhor, mais livre e sem todas as formas de RACISMOS em especial o RACISMO RELIGIOSO. Só quem já conversou com Ava sabe o que digo, uma pessoa que leva a fundo o sentimento básico de toda a humanidade "RESPEITO". Na ocasião mostrei a ela a minha cartilha e ela disse da importância de tal trabalho e que a cartilha vai além dos muros de um terreiro, que se aplica a todos os segmentos da sociedade inclusive as igrejas evangélicas. Disse também da necessidade de municiarmos nossa Comunidade como um todo de informações para que as mesmas possam exigir seus direitos e buscarem ajuda quando necessário. 

quarta-feira, 25 de março de 2026

Luziânia cria protocolo contra racismo religioso: denúncias de perturbação agora exigem identificação do reclamante


Medida, articulada por coletivos e Defensoria Pública, busca frear o uso de queixas de "perturbação de sossego" como ferramenta de assédio contra terreiros de Candomblé e Umbanda.

LUZIÂNIA (GO) – Em um passo decisivo para a proteção da liberdade religiosa e o combate ao racismo institucional, o município de Luziânia, no Entorno do Distrito Federal, estabeleceu um novo protocolo para o atendimento de ocorrências envolvendo templos de matriz africana. A partir desta quarta-feira (25), a Polícia Militar só atenderá denúncias de perturbação do sossego contra terreiros se o denunciante estiver presente no local para se identificar e formalizar a queixa.

A decisão foi o principal resultado da primeira reunião do Grupo de Trabalho (GT) criado para enfrentar a escalada de violência e intolerância na região. O grupo surgiu como resposta direta ao episódio de 28 de fevereiro, quando uma intervenção policial em um terreiro local, motivada por denúncias vizinhas, ganhou repercussão nacional e reacendeu o debate sobre o racismo religioso — termo utilizado por especialistas para descrever quando o preconceito atinge religiões de matriz africana devido à sua origem étnica.

O fim das denúncias anônimas como arma de perseguição

Para as lideranças de axé, a exigência da presença do denunciante é uma vitória contra o que chamam de "assédio jurídico e policial". Frequentemente, denúncias anônimas de barulho são utilizadas de forma arbitrária para interromper ritos sagrados, mesmo quando estes respeitam os limites legais.

"Se alguém fizer uma denúncia contra um barracão, um terreiro ou um templo religioso, a ocorrência só vai ser atendida se o denunciante estiver no local. Se o denunciante não estiver lá, a PM já vai orientar para que não haja abordagem", explicou o Pai Edivaldo de Oxum, coordenador do coletivo Povo de Terreiro em Ação (Jardim Ingá).

Segundo o líder religioso, a medida garante que a abordagem policial não seja pautada pelo preconceito, mas sim por um conflito real de vizinhança devidamente identificado.

Articulação Institucional e o Papel da Defensoria

O encontro que selou o acordo reuniu uma frente ampla de instituições, incluindo:

  • Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO)

  • Comando da Polícia Militar do Entorno Sul

  • Conselho Municipal de Igualdade Racial

  • Coletivo Povo de Terreiro em Ação

O subprocurador da Defensoria Pública, Breno Assis, e o Coronel Arantes, comandante da PM na região, reforçaram o compromisso com o diálogo. O GT agora assume um caráter permanente, com reuniões bimestrais previstas para ocorrer na sede da Defensoria em Luziânia.

Próximos Passos: Ampliação da Rede de Proteção

O grupo não pretende parar na mudança do protocolo policial. A meta é ampliar a composição do GT, convidando o Ministério Público de Goiás (MP-GO), delegacias regionais e representantes dos poderes Executivo e Legislativo municipal. O objetivo é criar uma rede de proteção que passe pela educação patrimonial e pelo reconhecimento dos terreiros como espaços de cultura e resistência.

A próxima reunião já tem data e local: ocorrerá daqui a dois meses na sede da DPE-GO em Luziânia, consolidando um espaço de escuta ativa para uma comunidade que, por muito tempo, foi silenciada pelo estigma.

Que os Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união. 

Axé!

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