SIMPLICIDADE E RESGATE DO SAGRADO MARCAM A FOGUEIRA DE XANGÔ EM ÁGUAS LINDAS DE GOIÁS
ÁGUAS LINDAS DE GOIÁS. Na noite do último sábado, 27 de junho de 2026, o bairro Royal Park testemunhou um daqueles momentos raros em que o tempo parece desacelerar para dar passagem à ancestralidade genuína. A tradicional Fogueira de Xangô, realizada na casa de Pai Almir de Omolú, foi um manifesto de fé, resistência e, acima de tudo, um retorno às origens dos cultos de matriz africana.
Em uma época em que grandes produções muitas vezes ofuscam a essência, a festividade de Pai Almir destacou-se justamente pelo oposto: uma beleza sutil onde a simplicidade se uniu perfeitamente ao Sagrado. O ambiente evocava a atmosfera dos toques de candomblé de antigamente — aqueles em que o brilho dos panos importados dava lugar ao foco absoluto na energia dos Orixás e na comunhão da comunidade.
Acolhimento e Tradição: O Começo de Tudo
Quem cruzava os portões do terreiro era imediatamente envolvido pelo axé da hospitalidade. O próprio dirigente da casa, Pai Almir de Omolú, fazia questão de recepcionar cada filho e visitante. Longe de qualquer formalidade rígida, o acolhimento vinha na forma de um cafezinho quente ou de um copo d'água — um gesto simples que traduz o verdadeiro espírito de família que rege os terreiros tradicionais.
No barracão, o som dos couros começou a ecoar sob a liderança do Alagbê Alex. Com maestria e profundo conhecimento dos fundamentos, ele conduziu o toque, ditando o ritmo que balançava os corpos e elevava o pensamento dos presentes. Entre os membros da casa e convidados ilustres que formavam a roda de axé, destacou-se a presença do Ògan Odé Somi, que compareceu representando a ATRACAR-GO (Associação de Terreiros e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana e Afro-Brasileira de Goiás), estreitando as frentes de união e representatividade da religião no estado.
O Elo entre o Ayê e o Òrun
O ponto alto da noite, aguardado com respeito e devoção por todos, foi o acendimento da fogueira ritualística. Enquanto as primeiras faíscas ganhavam vida para iluminar e aquecer a noite fria de junho, o silêncio respeitoso se misturava às preces silenciosas direcionadas ao Rei de Oyó.
"Pedíamos justiça; implorávamos para que o hálito da injustiça nunca seja baforado em nossas faces" Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ
Ao ganhar força, a fogueira crepitava intensamente, lançando suas chamas em direção aos céus em um bailado mágico, vivo e carregado de energia. Visualmente hipnotizante, o fogo não era apenas calor físico, mas um portal espiritual. Cada labareda que subia parecia carregar as preces da comunidade diretamente ao Òrun (o plano espiritual), trazendo a certeza imediata de que o Senhor da Justiça, Aquele que doa ao merecedor e cobra do devedor na justa medida, estava ali ouvindo seus filhos.
A fogueira de Pai Almir de Omolú transformou-se, de fato, no elo perfeito entre o Ayê (a terra) e o Òrun. Uma noite memorável que deixa como legado a certeza de que a força do candomblé reside na sua pureza e no respeito à memória dos que vieram antes. Kawó Kabiesilé!A CHAMA QUE UNE O AYÊ AO ÒRUN: SIMPLICIDADE E RESGATE DO SAGRADO MARCAM A FOGUEIRA DE XANGÔ EM ÁGUAS LINDAS DE GOIÁS
Que o axé seja multiplicado.
Axé!
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