"Nossos atabaques não são crime, são sagrados"Evento realizado ontem no Ministério dos Direitos Humanos reuniu lideranças de todo o país e denunciou crescimento assustador da
intolerância religiosa. Caso de Manaus, onde militares invadiram terreiro e apreenderam atabaques, expõe a face cruel do racismo estrutural brasileiro.*
Por: Ògan Assogbá Luiz Alves/ONIBODÊ O PORTEIRO
Brasília/DF, 1º de julho de 2026
Em um dia que marcou a resistência e a luta do povo de axé por dignidade e respeito, o auditório do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC) recebeu, ontem (30), o seminário "Racismo Religioso na Perspectiva da Violação de Direitos Humanos". O evento não foi apenas mais uma reunião institucional – foi um grito de alerta contra a escalada violenta da intolerância religiosa que tem assolado o Brasil.
Os números não mentem e doem: entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, o Disque 100 registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa no país, com um crescimento de 12,2% em relação ao período anterior. São Paulo lidera o ranking sombrio com 667 denúncias, seguido por Rio de Janeiro (446), Minas Gerais (323) e Bahia (211) [[1]]. Mas por trás desses números, existem histórias de dor, resistência e fé abalada pela violência do racismo religioso.
A VOZ DAS COMUNIDADES
O seminário, idealizado e realizado pelo MDHC em parceria com o Ministério da Igualdade Racial e Ministério da Saúde, trouxe para o centro do debate quem realmente importa: as vítimas e guerreiros que diariamente enfrentam a barbárie. Estiveram presentes representantes da RENAFRO NACIONAL (Rede de Saúde), RENAFRO-DF, Coletivo das Iyás do DF e Entorno, FOAFRO-DF, Coletivo Defensores do Axé, Projeto Onibodê, URI, ATRACAR-GO, Federação Uirapuru, Kitanda Cultural, comunidades quilombolas e diversas outras organizações da sociedade civil.
A pluralidade de vozes ecoou no auditório, entre elas foi a denúncia apresentada por Mãe Baiana, Ògan Luiz e Senhor Rui (MIR) que cortou o coração dos presentes e expôs, sem pudor, a face mais cruel do racismo religioso brasileiro.
O CASO MANAUS: QUANDO A FÉ É CRIMINALIZADA
Em Manaus, soldados militares invadiram um terreiro de matriz africana, apreenderam os atabaques – instrumentos sagrados, coração pulsante de nossas cerimônias – e levaram o dirigente do terreiro para a delegacia. O que poderia ser um caso isolado é, na verdade, a materialização do racismo estrutural que permeia as instituições brasileiras.
"Isso não é intolerância religiosa. Isso é racismo religioso". Isso é racismo estrutural. Isso é violência e abuso de autoridade. Nossos atabaques não são crime, são sagrados. Nossos terreiros não são bares, são templos. Nossas roupas não são fantasias, são indumentárias litúrgicas", ecoou no seminário.
O caso de Manaus se soma aos 699 casos de violações contra terreiros, lideranças religiosas e símbolos afro-brasileiros identificados em quase 30 anos de monitoramento. São atabaques quebrados, imagens profanadas, crianças xingadas nas escolas, terreiros incendiados, vidas ceifadas pelo ódio disfarçado de "fé".
POLÍTICAS PÚBLICAS: DA TEORIA À PRÁTICA
O seminário não se limitou às denúncias. Foram debatidas ações afirmativas concretas e políticas públicas inclusivas para o povo de axé. A discussão partiu de uma premissa fundamental: o Brasil é um Estado laico, e a laicidade do Estado deve proteger todas as crenças, especialmente aquelas historicamente perseguidas e marginalizadas.
As prioridades levantadas incluem:
- Capacitação de agentes de segurança pública sobre liberdade religiosa e combate ao racismo religioso
- Políticas de saúde específicas para a população de terreiro
- Inclusão da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas, de forma efetiva e não apenas protocolar
- Criação de delegacias especializadas no combate ao racismo religioso
- Reparação às vítimas e punição exemplar aos agressores
DESBRAMENTO E COMPROMISSO
O seminário de ontem não é um ponto final, mas uma vírgula na longa luta por respeito e igualdade. Os organizadores anunciaram que haverá desdobramento das discussões e que as propostas elaboradas serão apresentadas à comunidade de axé de todo o Brasil.
A presença de múltiplos ministérios (Direitos Humanos, Igualdade Racial e Saúde) demonstra que o combate ao racismo religioso deve ser transversal e integrado. Não basta apenas punir; é necessário educar, prevenir e reparar.
AXÉ RESISTE
Enquanto o Brasil caminha a passos largos para se tornar um dos países com mais denúncias de racismo religioso no mundo, o povo de axé segue firme em sua missão ancestral. Cada tambor tocado é um ato de resistência. Cada cerimônia realizada é uma vitória. Cada filho de santo que assume publicamente sua fé é um guerreiro na linha de frente contra o ódio.
O seminário de ontem em Brasília foi mais do que um evento governamental. Foi um ato político. Foi um ato de fé. Foi um ato de amor ao próximo e respeito à diversidade.
Que os Orixás, Voduns e Inkices abençoem essa luta. Que Exu abra os caminhos. Que Ogum abra as estradas. Que Oxalá traga a paz. E que nunca nos esqueçamos: racismo religioso é crime. Intolerância religiosa é violência. E o povo de axé não vai se calar.
SERVIÇO:
As propostas e desdobramentos do seminário serão apresentados à comunidade em breve. Acompanhe o blog ONIBODÊ O PORTEIRO para mais informações.
Veja abaixo as fotos do seminário:
Que o axé seja multiplicado.
Axé!
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