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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

BRASÍLIA PULSOU EM AXÉ: NA CASA NIEMEYER, O DENDÊ DESAFIOU O CONCRETO E O SAGRADO OCUPAR O CENTRO



Por Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ

Brasília — 18 de dezembro de 202

Na cidade-planejada, erguida sobre linhas retas e simetrias modernistas, algo irrompeu com força ancestral: o cheiro do dendê quente, o crepitar do fogo ritual, o som do atabaque ecoando entre paredes que um dia abrigaram o gênio de Oscar Niemeyer. Nos dias 16 e 17 de dezembro, a Casa Niemeyer, residência histórica do arquiteto visionário foi transformada em uma grande cozinha de um Ilê, em terreiro temporário, em centro de poder espiritual e político. Ali, o Projeto Saberes e Sabores – Amostra Gastronômica de Comidas de Terreiro não apenas encerrou sua primeira edição: inaugurou uma nova narrativa para a capital da República.

O ar de Brasília, tantas vezes associado à burocracia e ao discurso institucional, foi tomado por outro sopro: o àṣẹ que sai da panela de barro, do pilão de madeira, das mãos que, por gerações, transformam o sagrado em alimento e o alimento em resistência.

Foram dois dias de presença plena:  

45 terreiros e comunidades de matriz africana, representando os quatro cantos do Brasil 11 de cada região, foram celebrados e premiados com R$ 13 mil cada, além de um kit de cozinha completo, entregue com reverência, não como doação, mas como reparação simbólica e material.  




Lideranças religiosas: Tatas, babalorixás, ialorixás, ogãs, ekedis, mães e pais de santo ocuparam o centro da cena com voz firme, olhar sereno e sabedoria ancestral incontestável.  

Ao seu lado, representantes do governo federal, de secretarias de cultura e direitos humanos, e, com destaque emocionante, embaixadores e adidos culturais de países africanos. Um encontro transatlântico que não se limitou à diplomacia protocolar: foi reconhecimento de parentesco, de memória viva, de continuidade.







Nos diálogos institucionais, não se pediu espaço reivindicou-se pertencimento.  

E então, veio o clímax:  

A degustação coletiva, realizada sob luz natural que entrava pelas janelas da Casa Niemeyer como se até a arquitetura se curvasse diante da força ancestral. Pratos dispostos com zelo litúrgico:   



Cada sabor veio acompanhado de sua história: quem planta, quem colhe, quem cozinha, para quem se oferece, qual o axé que se ativa. Comer ali não era ato de consumo — era participação em um rito de comunhão intergeracional.

Encerrando a noite com o chão vibrando em homenagem a Oxum e Oxóssi, o Grupo Omo Ayò formado por filhos e filhas espirituais de Babá Aurélio de Odé, trouxe o afoxé como manifesto vivo. Suas cores, seus passos, seus cantos em yorubá ecoaram naquele espaço modernista como um lembrete:  

O sagrado não precisa de permissão para existir. Ele simplesmente é - e, quando chamado com respeito, ele desce e transforma qualquer lugar em ponto de força.






A escolha da Casa Niemeyer para esse encontro foi mais do que simbólica. Foi poética.  

Se Niemeyer sonhou uma Brasília com curvas que imitassem o corpo da mulher brasileira, agora, décadas depois, esse corpo foi nomeado: é o de Iemanjá, de Oxum, de Nanã — é o corpo das mães de santo que, com colher de pau e oração, constroem mundos dentro do mundo.




O Clube Social Negro do DF marcou presença.

Saberes e Sabores não é apenas um projeto.  

É um ato de soberania cultural.  

É a prova de que:  

A cozinha de terreiro é lugar de ciência e inovação;  

Os terreiros são polos de educação, saúde e segurança alimentar;  

E o Brasil só será plenamente Brasil quando souber que sua alma, seu tempero, seu Axé, vêm do terreiro.

Que as vencedoras e vencedores desta etapa semeiem colheitas generosas.  

Que cada kit de panela vire uma escola, um curso, um livro de receitas-orações.  

Que o dendê continue perfumando corredores de poder —  

porque enquanto houver fogo sagrado nas cozinhas de Axé,  

a ancestralidade seguirá quente, viva… e indestrutível. 



Queos Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união. 

Axé!

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segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Raízes que Unem: Encontro entre Lula e Tinubu celebra laços históricos e culturais entre Brasil e Nigéria com presença simbólica do Coletivo das Iyás/RENAFRO-Centro-Oeste

                 

Por: Ògan Assogbá Luiz Alves

Brasília, 25 de agosto de 2025 – Em um gesto carregado de simbolismo histórico e cultural, o Palácio do Planalto recebeu, nesta quinta-feira, a visita de Estado do Presidente da República da Nigéria, Sua Excelência Bola Ahmed Tinubu, recebido com honras de chefe de Estado pelo Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. O encontro, marcado por protocolos solenes e diálogos estratégicos, teve um momento de profunda ressonância simbólica com a presença das integrantes do Coletivo das Iyás/RENAFRO-Centro-Oeste, representantes vivas da ancestralidade africana que atravessou o Atlântico e se firmou no solo brasileiro.

A cerimônia teve início com a tradicional subida da rampa do Palácio do Planalto, onde o Presidente nigeriano foi saudado com calor por Lula, em um aperto de mãos que ecoou como um abraço entre irmãos de um mesmo tronco histórico. Vestido com trajes tradicionais nigerianos, Tinubu desfilou ao lado de Lula, que usava terno escuro e gravata verde e amarela, em direção ao Parlatório, onde as tropas militares do Exército Brasileiro realizaram um desfile em honra ao chefe de Estado convidado — um gesto de respeito institucional que, neste contexto, ganhou contornos de reconhecimento mútuo entre nações irmãs.

Após a revista às tropas, os líderes se reuniram em caráter privado no interior do Palácio. Em sua fala posterior ao encontro, o Presidente Lula destacou a urgência de fortalecer as relações comerciais entre Brasil e Nigéria, dois gigantes do hemisfério sul com potencial estratégico em áreas como agricultura, energia, indústria e tecnologia. “A Nigéria é um dos maiores parceiros naturais do Brasil na África. Temos raízes comuns, temos história compartilhada, e agora precisamos construir um futuro comum”, afirmou Lula, reafirmando seu compromisso com o multilateralismo como caminho para a paz e o desenvolvimento global.

Mas foi no almoço de boas-vindas, servido em clima de cordialidade diplomática, que o evento tocou o âmago da memória afro-brasileira. Pela primeira vez em uma cerimônia oficial de Estado no Planalto, integrantes do Coletivo das Iyás/RENAFRO-Centro-Oeste foram convidadas a participar como representantes da espiritualidade e da cultura afrodescendente no Brasil. Vestidas com roupas tradicionais —, as Iyás (mães espirituais de terreiros de matrizes africana) ocuparam um lugar de honra entre autoridades brasileiras e nigerianas.A presença delas não foi mero detalhe protocolar. Foi um ato político e simbólico de reparação histórica. As Iyás representam a continuidade viva das tradições religiosas iorubás, que sobreviveram à escravidão, à perseguição e ao esquecimento imposto pela colonização. Hoje, são guardiãs de saberes ancestrais, curandeiras, líderes comunitárias e defensoras dos direitos dos povos de terreiro. Sua presença ao lado do Presidente da Nigéria — um homem cujo sobrenome, Tinubu, tem raízes iorubás e cuja linhagem é ligada à antiga cidade de Abeokuta — fez ecoar, em silêncio eloquente, a jornada de milhões de africanos arrancados de suas terras e forçados a cruzar o Atlântico.

“É um momento de emoção profunda”, disse uma das representantes do coletivo presente. “Ver um presidente nigeriano sendo recebido com respeito aqui, e nós, mães de santo, sentadas à mesma mesa, é um sinal de que nossas raízes estão sendo respeitadas. Nós somos a Nigéria que ficou, a Nigéria que resistiu, a Nigéria que rezou e que nunca esqueceu.”

A RENAFRO (Rede Nacional de Afro-Religiões), por meio de seu núcleo Centro-Oeste, tem atuado com força na defesa dos direitos das religiões de matriz africana, combatendo o racismo religioso e promovendo políticas de inclusão. A convocação para este evento histórico é vista como um reconhecimento institucional dessas lutas.

O encontro entre Lula e Tinubu vai além da diplomacia econômica. Ele toca na memória coletiva de um povo. Segundo dados históricos, cerca de 40% dos africanos trazidos à força para o Brasil durante o período colonial eram provenientes da região que hoje corresponde à Nigéria, sobretudo do povo iorubá. É desse povo que também vêm as bases do candomblé, da umbanda, do vocabulário, da culinária, da música e da espiritualidade que hoje fazem parte do DNA brasileiro.

Com este gesto, o governo brasileiro não apenas fortalece laços diplomáticos, mas **reconhece publicamente a dívida histórica com a África** — e, sobretudo, com as comunidades afro-brasileiras que mantiveram vivas as tradições africanas contra todos os ventos.

Ao final do almoço, enquanto os líderes trocavam presentes — entre eles, uma peça de arte iorubá e um quadro com motivos do cerrado brasileiro —, uma Iyá fez uma breve oração em iorubá, pedindo proteção para os dois países e harmonia entre os povos. Um momento breve, mas carregado de poder: a ancestralidade abençoando o futuro.

Entre acordos comerciais e discursos de cooperação, o que mais tocou o coração do povo brasileiro foi ver mães de santo, herdeiras da Nigéria ancestral, sentadas à mesa do poder. Um encontro de Estados, sim. Mas, acima de tudo, um encontro de almas.

Que os Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união. 

Axé!

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sábado, 19 de julho de 2025

"No Coração de Planaltina, o Vento Leva Saudade e o Chão Guarda Saudações: Homenagem Poderosa ao Boiadeiro Seu Zé Vaqueiro das Almas"

 

Por: Ògan Assogbá Luiz Alves PROJETO ONÍBODÊ 

PLANALTINA DE GOIÁS, 19 de julhode 2025 — Sob o céu aberto de Planaltina de Goiás, onde o tempo parece parar para ouvir as vozes dos antigos, o vento soprou manso e trouxe com ele o cheiro do mato, da terra molhada e da memória viva dos Ancestrais. No recinto sagrado do Ilê Axé Tenda de Oxum – Caminho de Ouro, um encontro especial ecoou entre tambores, saudações e lágrimas contidas nos olhos daqueles que vieram agradecer, pedir e se reconectar com o que há de mais sagrado: a ancestralidade, a fé e a força coletiva.

O dia amanheceu com promessa de encantamento. A roda de saudações aos Ancestrais foi o primeiro ato de uma cerimônia que uniu tradição, espiritualidade e resistência. Cada passo dado em direção ao terreiro era um ato de reverência. Cada voz que se ergueu em círculo era um canto de resistência — aquele que ecoa desde os tempos da senzala, atravessando séculos, mas que não se cala.

E então, como se o próprio tempo se curvasse para recebê-lo, Seu Zé Vaqueiro das Almas chegou. Dono da festa, guardião de histórias, boiadeiro de almas e coração livre. Sua presença foi recebida com aplausos, danças e um silêncio respeitoso que se fez no momento exato de sua entrada. Afinal, diante de quem carrega em si o peso e a leveza de tantos anos de caminhada, o que se faz é ouvir — e sentir.


Com ele vieram os convidados, aqueles que, como ele, carregam em si o legado de quem nunca esqueceu de onde veio. Entre eles, Pai Toninho de Oxum, que conduziu os trabalhos com maestria e sabedoria, guiando os presentes pelas veredas espirituais com a leveza de quem sabe que a força não está no grito, mas na intenção. Também estiveram presentes Pai Gladson de Omolú, avô de Mãe Sheila, e Pai Willian de Oxumarê, que juntos compuseram um time de Pais de Axé cuja energia era palpável no ar.

O cheiro do Mocotó do Seu Zé Vaqueiro das Almas se misturou ao incenso e ao suor daqueles que vieram de longe. Um prato simples, mas cheio de significado — como ele mesmo, que não precisa de luxos para ser grande. Cada colherada era um agradecimento, cada prato servido era uma promessa cumprida, um voto de gratidão à vida e aos Orixás.

A alegria era contagiante. Crianças corriam entre os adultos, os mais velhos sorriam com os olhos marejados, e os jovens, mesmo sem entender inteiramente a magnitude do momento, sentiam na pele o peso e a força daquela energia. Ali, não havia divisão de gerações — havia apenas comunhão.





Seu Zé Vaqueiro, com sua voz calma e sua fala carinhosa, falou ao coração de cada um. Ele não precisou erguer o tom para ser ouvido. Suas palavras foram como água fresca no meio do sertão: alívio, conforto, direção. "O importante é que a gente não esqueça de onde veio", disse ele, entre sorrisos e abraços apertados. E cada um ali, de alguma forma, entendeu que aquilo era mais do que uma homenagem — era um reencontro com a própria essência.


Sob o olhar atento de Mãe Sheila de Oxum, guardiã do Ilê Axé Tenda de Oxum – Caminho de Ouro, o terreiro vibrou com a força dos Orixás e a presença dos que acreditam. Mãe Sheila, com sua postura firme e coração aberto, soube conduzir o espaço como uma verdadeira rainha de Oxum — acolhendo, protegendo, iluminando.

Este foi mais do que um toque em homenagem. Foi um grito de resistência. Um ato de amor à ancestralidade. Uma celebração da vida em sua forma mais pura. E, acima de tudo, uma prova de que a cultura e a religiosidade afro-brasileira não só resistem, mas se multiplicam, se fortalecem e se renovam a cada encontro como esse.


Seu Zé Vaqueiro das Almas, com seu chapéu e alma de gigante, deixou claro: o boiadeiro não anda só pelas estradas do sertão. Ele caminha também pelas veredas do sagrado, guiando almas, abençoando caminhos e lembrando a todos que, mesmo em tempos tão incertos, há força no encontro, no abraço e na saudação aos Ancestrais.

Que Oxum continue derramando suas águas doces sobre esse terreiro. Que Omolú mantenha a saúde em todos os corpos. Que Oxumarê traga renovação constante. Que todos os Orixás continuem protegendo esse legado — e que Seu Zé Vaqueiro das Almas continue, por muitos anos ainda, nos lembrando de onde viemos e para onde devemos seguir.

Que os Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união. 

Axé!

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quinta-feira, 26 de junho de 2025

"Meu Sonho é Meu Quilombo": Exposição da Fundação Cultural Palmares celebra a resistência e a ancestralidade negra com brilho, emoção e dignidade

Por Ògan Assogbá Luiz Alves - PROJETO ONÍBODÊ

Hoje, 26 de junho, o Espaço de Exposições da Fundação Cultural Palmares (FCP) respirou memória, coragem e identidade. A abertura da exposição coletiva “Meu Sonho é Meu Quilombo”, organizada em parceria com os alunos de Museologia da Universidade de Brasília (UNB), foi muito mais do que um evento cultural — foi um ato de reafirmação da negritude, da resistência e da Ancestralidade como pilares da nossa identidade nacional.


A exposição mergulha no acervo da FCP e revela histórias escondidas, vozes silenciadas e trajetórias de luta que deram forma ao povo negro brasileiro. Cada vitrine, cada foto, cada objeto exposto era uma declaração de amor próprio, um grito de orgulho, uma afirmação: somos filhos do quilombo e não vamos nos calar.


A roda de conversa contou com a presença iluminada de Lydia Garcia, nossa Griô contemporânea, e Mãe Baiana de Oyá, nossa Matriarca . Suas palavras ecoaram como se fossem batidas de atabaque na alma de quem estava presente. Falaram de fé, de terreiro, de história viva, de raça, de liberdade.

Foi impossível não sentir o coração bater mais forte diante de tantas verdades ditas com coragem. Verdades que não pedem licença para existir. Verdades que lembram que o quilombo não é só passado, mas também sonho, projeto e futuro.


Essa exposição não apenas mostra a história — ela a revive, a cura, a transforma. É um chamado à consciência, à reparação, ao respeito. Um lembrete de que o povo negro não só construiu este país, ele o sonhou com justiça, dignidade e humanidade.


Quem for, vai sair diferente. Mais consciente. Mais cheio de coragem, de fé, de esperança. Porque “Meu Sonho é Meu Quilombo” não é apenas uma exposição — é um encontro com a alma negra do Brasil.


E se você ainda não viu, precisa ver. Não por obrigação. Mas por necessidade de alma.

Que os Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união. 

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