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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Da repressão ao reconhecimento: Professora Lidi Leão é homenageada com Prêmio Paulo Freire após superar caso de intolerância religiosa

Por: Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ

Brasília, outubro de 2025 – A trajetória da Professora de Artes Lidi Leão é um emblemático retrato dos desafios e das vitórias na implementação da Lei 10.639/03. No final de 2023, a educadora foi alvo de um processo administrativo após realizar um trabalho pedagógico com seus alunos baseado na obra "Procissão dos Oríxás", do consagrado artista Carybé. A atividade, inserida nas comemorações do Mês da Consciência Negra, consistia em uma representação performática da obra, onde os estudantes, vestidos como as figuras sagradas, caminhavam sobre um tapete de folhas de mangueira e finalizavam a cena como estátuas vivas.

A iniciativa, que visava valorizar a cultura e a estética afro-brasileira, foi erroneamente interpretada por terceiros como "proselitismo religioso". O caso gerou represálias contra a professora, evidenciando a fragilidade com que as leis que instituem o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira são, por vezes, recebidas em certos setores da sociedade.

Diante da injustiça, a sociedade civil organizada moveu-se. O FOAFRO-DF e o Coletivo Defensores do Axé, através de seu coordenador, prontamente ofereceram apoio integral à professora. Como ato de resistência e esclarecimento, uma nova apresentação foi organizada, desta vez aberta ao público. O evento contou com a presença de representantes da OAB-DF, da Federação de Umbanda e Candomblé de Brasilia e Entorno, de associações de moradores e de grupos do movimento negro, que atestaram o caráter estritamente cultural e pedagógico da atividade. Um debate posterior reforçou a legitimidade da ação, ancorada na Lei 10.639/03.

A ironia e a disparidade de tratamento ficaram ainda mais explícitas com o relato de que, na mesma escola, um evento intitulado "Recreio com Jesus", que incentivava a leitura da bíblia e a realização de cultos durante o horário de recreio, ocorria sem qualquer impedimento.

Agora, a justiça pedagógica e o compromisso com uma educação antirracista são finalmente reconhecidos. A Professora Lidi Leão será uma das homenageadas do 3º Prêmio Paulo Freire de Educação, que ocorrerá na próxima terça-feira, 21 de outubro, às 19h, no Teatro Pedro Calmon (Setor Militar Urbano). Em um gesto de gratidão e reconhecimento pelo apoio decisivo, a educadora convidou o Coordenador do FOAFRO-DF e do COLETIVO DE WHATSAPP DEFENSORES DO AXÉ, Ògan Assogbá Luiz Alves para subir ao palco e receber a honraria ao seu lado.

A história da Professora Lidi transcende a sua pessoa. Ela simboliza a luta diária de milhares de educadores para descolonizar os currículos e construir uma escola verdadeiramente plural, onde a cultura afro-brasileira não seja criminalizada, mas celebrada como parte fundamental da nossa identidade nacional. Da repressão ao mais alto reconhecimento, sua jornada é um testemunho de que a resistência, quando coletiva, floresce em vitória.

Sobre o Prêmio Paulo Freire: Concedido pela Comissão de Educação da Câmara Legislativa do Distrito Federal, o prêmio visa valorizar projetos e profissionais que se destacam na promoção de uma educação pública, democrática, laica e de qualidade, seguindo os princípios do patrono da educação brasileira.

Cartaz da apresentação na Escola CED310 em Santa Maria - DF

Que os Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união. 

Axé!

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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

O Toque do Rei: Em Águas Lindas, um novo Ilê de Xangô ergue seu OXÊ SAGRADO contra o silêncio e a intolerância



Por: Ògan Assogbá Luiz Alves/ PROJETO ONÍBODÊ

ÁGUAS LINDAS DE GOIÁS, 11 de Outubro de 2025 – O solo sagrado tremeu. Não foi um tremor geológico, mas um abalo ancestral, um eco vindo diretamente de Oyó que encontrou solo fértil no coração do Cerrado. Na tarde deste sábado, sob um sol que abençoou a cerimônia, o Ilê Ase Iná Ojú Obá Óyó abriu suas portas, e com elas, abriu-se um novo capítulo de resistência, acolhimento e axé na região. Mais do que a inauguração de um templo, foi a coroação de um ato de coragem.



A casa, que em yorubá significa “A Casa do Fogo do Senhor Rei de Oyó”, é liderada pela Mãe Kynalunguê (Mãe Laliana Alho), uma sacerdotisa cujo olhar sereno carrega a força de gerações. Ela, junto com seus filhos e filhas de santo, recebeu a todos não como espectadores, mas como parte de uma grande família extensa, num carinho que se manifestava num abraço, num sorriso. O axé, a força vital, não era um conceito abstrato; era palpável, um calor que envolvia cada canto do espaço, uma positividade que lavava a alma das atribulações do mundo lá fora.

Os presentes testemunharam o que as comunidades de matriz africana sabem, mas que o mundo insiste em ignorar: estes espaços são portos seguros. São lugares onde a palavra de conforto vira um bálsamo, onde o apoio na luta contra as injustiças se transforma em estratégia coletiva, e onde o acolhimento não é um slogan, mas uma prática diária e real. Em um país onde a intolerância religiosa mostra suas garras com frequência cruel, respirar a liberdade daquele terreiro era, em si, um ato revolucionário.

E então, o ápice. O momento em que a emoção, contida até então em sorrisos e lágrimas discretas, transbordou. A comitiva do Rei de Oyó adentrou o ESPAÇO SAGRADO. Os atabaques falaram uma linguagem mais antiga que qualquer idioma. O ritmo, firme e solene, era o próprio pulsar do coração de Xangô. A energia mudou, o ar ficou denso, carregado de uma presença majestosa e justiceira. Não era apenas uma performance; era a chegada do próprio Orixá, daquele que é senhor da justiça, da política e do fogo transformador. A cerimônia foi conduzida por Pai Ricardo de Oxóssi com a participação de seus filhos que foram dar o abraço e participar das funções da nova casa da Famíllia do Ilê Axé Odé Erinlé e também com a presença de Pai Alan Baloni (avô de Mãe Laliane) e seus filhos 

Naquele instante, todos – iniciados e não-iniciados – foram envolvidos por uma onda de amor e esperança. Era a sensação tangível de que, apesar dos ataques diários, dos momentos difíceis que assolam nossa comunidade, nós resistimos. A abertura daquele Ilê é muito mais que uma conquista local; é um farol. Um clarão no escuro que anuncia: “Permanecemos aqui. Cultuamos nossos ancestrais aqui. E, apesar de tantos quererem nos silenciar, nossa voz ecoará através dos tambores”.

O Ilê Ase Iná Ojú Obá Óyó não é apenas uma casa de Xangô. É uma trincheira de cultura, um hospital da alma, uma escola de ancestralidade. Cada canto abençoado, cada folha sagrada, cada toque do rum, rumpi e lé é um grito de existência.



A tarde terminou, mas o toque do rei continua ecoando. Ele ressoa como um lembrete poderoso, um juramento feito à sociedade: O AXÉ SEMPRE PREVALESCERÁ E RESISTIRÁ CONTRA O RACISMO RELIGIOSO E SUAS MAZELAS. E em Águas Lindas, um novo fogo foi aceso, e sua chama, alimentada pela fé de um povo que não se cala, promete iluminar por muitas gerações. Um dia, sem dúvida, para ficar guardado para sempre em nossa memória afetiva e em nossa história de luta.

Que os Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união. 

Xangô Vive

Que os Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união. 

Axé!

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domingo, 5 de outubro de 2025

Terreiro de Umbanda Iniciática se consolida como Ponto de Cultura com ato de celebração e denúncia contra o racismo religioso

Por: Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ

Brasília, DF – 5 de outubro de 2025— Na tarde de ontem, o Terreiro de Umbanda Iniciática – Casa Luz de Yorimá, localizado na quadra 905 Norte, tornou-se palco de um encontro potente entre tradições espirituais, resistência cultural e denúncia política. O espaço, recentemente reconhecido como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura, abriu suas portas com o Projeto Quitanda Cultura e Saberes, um ato simbólico e político que reuniu comunidades de matriz africana, povos originários e defensores dos direitos humanos em torno de uma mesma causa: a defesa da diversidade religiosa e territorial no Brasil.

Fotografia como arma contra o racismo religioso



A programação teve início com a visita guiada à exposição do fotodocumentarista e fotojornalista Ògan Assogbá Luiz Alves, um dos mais destacados nomes da cena cultural afro-brasiliense. Sua obra, marcada por uma estética profundamente espiritual.

Alves, que também é religioso de terreiro, utiliza a fotografia não apenas como registro, mas como instrumento de luta contra o racismo religioso. Seu trabalho é pioneiro na capital federal: é o primeiro fotógrafo autoral a mapear visualmente, com sensibilidade e rigor, os saberes, rituais e cotidianos dessas comunidades frequentemente invisibilizadas ou estigmatizadas.

“Minhas lentes não capturam imagens, capturam memórias vivas. Cada foto é um ato de resistência contra a narrativa que tenta apagar nossas tradições”, afirmou Assogbá durante a visita, diante de imagens que retratam oferendas, cerimônias, rostos marcados pela ancestralidade e pela força da fé.

Toré como cura e denúncia

Em seguida, o terreiro foi envolto por uma energia ancestral com a Roda de Toré conduzida pela Liderança Júnior Xukuru e seus parentes. O Toré, ritual sagrado dos povos indígenas do Nordeste — especialmente dos Xukuru do Ororubá —, ecoou entre os Orixás, Caboclos e Pretos Velhos presentes energéticamente no Espaço Sagrado, criando uma ponte espiritual entre as matrizes indígena e africana que compõem a alma da religiosidade brasileira.

Mas o momento também foi de denúncia urgente. O Cacique Xukuru revelou, com a voz embargada pela dor, que na tarde anterior seu Espaço Sagrado em Sobradinho (DF) foi alvo de um ataque racista: criminosos atearam fogo ao local, destruindo toda a madeira que seria usada por sua família para a construção de uma oca em tamanho natural, símbolo de resistência e pertencimento territorial.

“Queimaram nossa madeira, mas não queimaram nosso espírito. Estamos aqui para dizer: não vamos calar. Nossa espiritualidade é sagrada, nosso território é sagrado”, declarou o cacique, enquanto os presentes entoavam cantos de cura e proteção.

“Levante pela Terra”: cinema como testemunho

A programação seguiu com a exibição do documentário “Levante pela Terra”, obra do diretor indígena Marcelo Cuhexê, que dá voz aos povos originários em sua luta histórica pelo direito à terra. O filme desconstrói a narrativa hegemônica do agronegócio e do latifúndio, mostrando, pela ótica dos próprios povos, como os territórios tradicionais são invadidos, desmatados e mercantilizados. Após a exibição, Marcelo Cuhexê participou de um bate-papo emocionante, no qual explicou o processo coletivo de criação do documentário. “Não fizemos um filme sobre os povos originários. Fizemos um filme com eles. Cada cena foi construída em diálogo, em respeito e em aliança espiritual”, disse o cineasta, destacando que o projeto nasceu de uma necessidade urgente de reexistência visual — ou seja, de reaparecer com dignidade nas telas e na história oficial.


Um Ponto de Cultura como fortaleza espiritual

A consolidação da Casa Luz de Yorimá como Ponto de Cultura representa muito mais do que um reconhecimento institucional. É a afirmação de que terreiros são espaços de saber, arte, memória e resistência. Em tempos de crescente intolerância religiosa e violência simbólica contra tradições afro-indígenas, iniciativas como o Projeto Quitanda Cultura e Saberes são atos de coragem e esperança.

“Aqui não se cultua apenas os Orixás. Aqui se cultiva a vida, a diversidade, a justiça”, afirmou Mãe Leila, líder espiritual da casa, ao encerrar o encontro e um chamado à união: “Que esta casa seja sempre um refúgio para os que caminham com a cabeça erguida e os pés na terra sagrada.”

O racismo religioso não passará. A espiritualidade ancestral resiste.


Ògan Assogá Luiz Alves é epresentante do FOAFRO-DF, Projeto Oníbodê e Coletivo "Defensores do Axé"

Que os Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união. 

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