sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Festa das Águas 2026: Na Prainha de Brasília, o Axé Resiste e Reafirma seu Território Sagrado

 

Por: Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ

 
BRASÍLIA )— Sob o manto sagrado que banha o Lago Paranoá no dia 1º de fevereiro, centenas de filhos e filhas de santo, adeptos, simpatizantes e curiosos se reuniram na Praça dos Orixás — carinhosamente conhecida como Prainha — para celebrar a Festa das Águas 2026. Promovido pelo Instituto Rosa dos Ventos, o evento transcendeu a dimensão ritual para se afirmar como um ato político de resistência, memória e reexistência da cultura afro-brasileira na capital federal.

Ao som dos atabaques que ecoaram desde o entardecer, o cortejo em homenagem a Iyemanjá — a Rainha das Águas, Senhora do Mar e protetora das embarcações — chegou na orla com a parceria simbólica da Loja Babá Tobi, carregando oferendas, flores brancas e balaios tecidos e com Iyemojá representada em uma linda manequim negra com as vestes ritualísticas da Orixá homenageada. Cada movimento, cada cântico em yorubá, nagô, djedje, ketu, jurema, umbanda , cada passo sobre a areia representava não apenas devoção, mas a reafirmação de um direito ancestral: o de ocupar, honrar e proteger espaços sagrados em uma cidade historicamente marcada pela intolerância religiosa.

Rituais que tecem memória e pertencimento

A cerimônia central — a lavagem do monumento dedicado a Iyemanjá com água perfumada de que se transformam em espumas-do-mar, manjericão e dendê — transformou-se em um momento de comoção coletiva. Mães e pais de santo de terreiros de Samambaia, Ceilândia, Gama, Planaltina e do Plano Piloto inclusive dos Territórios em torno do DF uniram-se em roda de axé, entoando pontos tradicionais enquanto vertiam as águas sagradas sobre a escultura desgastada pelo tempo e, sobretudo, por sucessivos atos de vandalismo motivados por racismo religioso.

"Este não é apenas um monumento de concreto. É um assentamento coletivo, um ponto de força espiritual onde milhares de pessoas já depositaram seus sonhos, suas lágrimas e suas gratidões", afirmou Mãe Baiana de Oyá, do Ilê Axé Oyá Bagan, com a voz embargada ao observar as rachaduras na estátua atual. "Cada arranhão neste concreto é uma ferida em nosso povo. Mas cada flor que depositamos aqui é um ato de cura."




Adoção da Praça dos Orixás: um marco histórico na luta antirracista

O ápice político do evento ocorreu durante a roda de conversa "Território, Memória e Resistência", quando foi oficialmente firmado o processo de Adoção da Praça dos Orixás. Encabeçado pelo Instituto Rosa dos Ventos em parceria com diversas casa de axé do Distrito Federal e Entorno, o acordo prevê a gestão compartilhada do espaço com o GDF, garantindo manutenção periódica, segurança simbólica e programação cultural permanente.

Na ocasião, foram apresentados os projetos dos novos monumentos que substituirão os atuais — deteriorados não pela ação do tempo, mas por ataques recorrentes. As novas esculturas, concebidas por artistas negros do DF em diálogo com sacerdotes tradicionais, trarão representações mais fiéis aos orixás, com materiais resistentes a intempéries e vandalismo, além de placas explicativas em português, yorubá e libras, transformando o local em um verdadeiro espaço de educação patrimonial viva.

"Adotar este espaço é assumir a responsabilidade de cuidar não só da pedra, mas da memória que ela carrega", destacou Ekédjí Stafane coordenadora do Instituto Rosa dos Ventos. "Aqui não se cultua 'simpatia' ou 'crença exótica'. Aqui se honra uma cosmologia milenar que é parte constitutiva da alma brasileira."

Durante a roda de conversa foi realizada a distribuição do "GUIA DE DIREITOS DOS POVOS DE MATRIZ AFRICANA E AFRO-BRASILEIRA, que trata dos direitos da comunidade afro- religiosa e da cartilha "QUEM É DE AXÉ NÃO ASSEDIA! um publicação de autoria de Ògan Assogbá Luiz Alves que trata das diversas formas de assédio, coo identifica-los, buscar ajuda e denuncia-los. Ambas as publicações foram apoiadas integralmente pelo SINDICATO DOS BANCÁRIOS DO DF.  





























Economia solidária e cultura viva

Além da dimensão espiritual e política, a Festa das Águas respirou a vitalidade da economia solidária de matriz africana. A feira reuniu empreendedores de terreiro oferecendo artesanato em cerâmica ritualística, vestimentas litúrgicas bordadas à mão, ervas medicinais e a já reconhecida culinária de terreiro — com destaque para o efó, acarajé de tabuleiro e o omolocum, pratos que dialogam diretamente com a ancestralidade culinária iorubá.





No palco montado, apresentações culturais trouxeram grupos que dialoga com a juventude e toda a comunidade afro religiosa, demonstrando que a religiosidade de matriz africana não é estática: é viva, em constante movimento e diálogo com outras expressões da diáspora.











Axé além da celebração

Ao término do segundo dia de festa, com o por do sol tingindo o lago de tons dourados — cor de Oxum, irmã e confidente de Iyemanjá —, ficou evidente que a Festa das Águas 2026 foi muito além de uma celebração religiosa. Foi um ato de soberania cultural. Um lembrete de que, mesmo em uma cidade planejada sob lógicas modernistas que muitas vezes negaram a presença do sagrado africano, o axé encontra frestas no concreto para brotar, resistir e florescer.

Na Prainha, as águas do Paranoá não apenas refletem o céu. Refletem a força de um povo que, com balaios nas mãos e cânticos na alma, segue tecendo seu território sagrado — um fio de resistência que nenhuma onda de intolerância conseguirá apagar.




























Ògan Assogbá Luiz Alves é fotojornalistaa e fotodocumentarista com mais de 35 anos de iniciado e de dedicação à documentação visual e textual das comunidades de matriz africana em Brasília. Se você gosta de meu trabalho e que o mesmo continue, apoie

Que os Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união. 

Axé!

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