Por Ògan Assogbá Luiz Alves
Águas Lindas de Goiás — GO
Nos dias 06 e 07 de setembro de 2025, sob céu aberto e terra batida, pulsou forte o coração de Ketu em terras goianas. Nas Mansões Odisséia, distante dos grandes centros, mas profundamente conectada às raízes ancestrais, nasceu o Ilê Asé Oluwa Írin Ati Mimo ti Osogiyan — Ase Ajagunan, uma nova casa de Axé de raiz Opó Afonjá do Rio de Janeiro, agora plantada com força e fé no cerrado goiano.
A abertura do Ase Ajagunan — que em yorubá significa “O Poder dos Guerreiros” — foi conduzida com maestria por Pai Ricardo de Oxóssi, sacerdote experiente e guardião de tradições, que celebrou com lágrimos nos olhos e voz firme mais uma etapa da caminhada de seu filho espiritual: Babá Milá, agora à frente de sua própria casa, pronto para conduzir seus trabalhos, seus filhos e suas obrigações com a ancestralidade.
“Ver meu filho erguer seu Ilê é como ver uma árvore que plantei dar frutos para alimentar muitos. É orgulho, é responsabilidade, é Axé multiplicado”, declarou Pai Ricardo, cercado por ogãs, ekedis e filhos de santo que entoavam pontos e dançavam ao som dos atabaques.
A cerimônia contou ainda com a presença marcante de Pai Alan Baloni de Ogum, que chegou com sua corrente de guerreiros e guerreiras, trazendo bênçãos de ferro e fogo, e com representantes de outras casas de Águas Lindas — terra que, apesar das adversidades, tem se tornado um celeiro de resistência afro-religiosa no Entorno do DF. Também estiveram presentes lideranças da Comunidade Afro-Religiosa de Brasília e Territórios, da ATRACAR - GO reforçando a rede de irmandade que une terreiros além das fronteiras geográficas.
Celebrar na terra é lembrar de onde viemos. É honrar os que dançaram escondidos, que cantaram baixinho, que invocaram seus Orixás mesmo com o chicote por perto. Hoje, dançamos abertamente. Mas não esquecemos: cada batida de atabaque é um grito de liberdade”.
O NASCER DE UMA CASA É UM ATO POLÍTICO
Não se engane: abrir um terreiro hoje — especialmente em regiões periféricas, onde o fundamentalismo avança como fogo em capim seco — é um ato de coragem. É resistência. É política. É dizer: estamos aqui. Não vamos embora. Não conseguirão nos calar.
O Ase Ajagunan nasce como um bastião de cultura, espiritualidade e memória. Nasce como um grito de existência num país que ainda tenta apagar nossa presença. Ser afro-religioso é ser resiliente. É carregar no corpo a dor da diáspora e transformá-la em dança, em canto, em oferenda. É saber que nossa força vem dos ancestrais, que nosso amor ao Sagrado é maior que qualquer intolerância.
Que Oxalá abençoe os caminhos do Ilê Asé Oluwa Írin Ati Mimo ti Osogiyan — Ase Ajagunan. Que Ogum abra seus caminhos. Que Oxóssi guarde sua entrada. Que Iansã varra toda energia contrária. E que Exu Oníbodê, o Porteiro, jamais deixe a intolerância cruzar seu umbral.
Axé pra quem merece.
Resistência pra quem luta.
E que o Ase Ajagunan prospere — hoje, amanhã e sempre.
ONÍBODÊ O PORTEIRO
Onde o Axé entra e a intolerância não passa
Que os Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união.
Axé!
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