O Axé Ocupa a Urna: Por que nossa fé precisa de voz (e de memória) na política
Por: Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ
"Religião e política não se misturam". Quantas vezes ouvimos essa frase ecoar dentro de nossos terreiros, barracões e casas de reza? Por décadas, essa máxima foi cultivada como um dogma de preservação, uma forma de manter o sagrado longe das disputas muitas vezes "sujas" do poder institucional. Mas o tempo passou, e a realidade nos deu um golpe de despertar: enquanto nós nos silenciamos para preservar o mistério, outros grupos ocuparam as cadeiras do poder e transformaram sua fé em ferramenta de cerceamento da nossa.
O resultado está estampado nos jornais e nas atas das Casas de Leis, da Câmara Municipal mais remota ao Congresso Nacional. As chamadas "Bancadas da Bíblia" crescem, legislam e, não raramente, buscam meios de asfixiar o livre exercício das religiões de matriz africana. Hoje, somos reféns de decisões tomadas por quem não nos conhece — ou pior, por quem nos quer invisíveis.
O Despertar para a Representatividade
É neste cenário de urgência que surge a necessidade da comunidade afro-religiosa se impor. Não se trata apenas de "querer poder", mas de garantir a sobrevivência. Precisamos de gente nossa onde as leis são feitas. Precisamos de quem entenda que um terreiro é, antes de tudo, um centro de acolhimento social, de preservação ambiental e de resistência cultural.
No entanto, o ano eleitoral traz consigo um fenômeno perigoso: o surgimento de "aliados de ocasião".
Entre o Discurso e a Trajetória: Onde eles estavam?
Quando o som do nosso atabaque foi perseguido, onde estavam aqueles que hoje pedem o nosso voto? Quando fomos atacados fisicamente, quando nossas casas foram invadidas ou quando o racismo religioso tentou nos impedir de usar nossas contas e nossos brancos nas ruas, onde estavam os "simpatizantes" que agora aparecem para a foto?
É preciso ter coragem para dizer o óbvio: não basta ser afro-religioso ou se dizer aliado; é preciso ter compromisso.
Não podemos aceitar candidatos que usam o nosso axé como um adereço de campanha. A política para o povo de santo exige história. Exige ter "colocado a cara a tapa" quando o cenário não era de festa, mas de luta. O voto não pode ser entregue a quem nunca pisou no barro da nossa resistência ou a quem se calou diante das investidas do fundamentalismo.
A Política como Extensão do Terreiro
A política institucional deve ser uma extensão do que já vivemos no Egbé (comunidade): o cuidado com o outro, a distribuição de recursos, o respeito à ancestralidade e a defesa do território.
Precisamos de representantes que não tenham vergonha da sua fé, mas que, acima de tudo, tenham uma trajetória que valide sua fala. O "simpatizante" de última hora é aquele que, após a eleição, esquece o caminho do terreiro e se omite nas votações que decidem o destino das nossas tradições. Aquele que vai ao seu terreiro escondido pela noite, jamais assumirá um papel ou fará um discurso em uma tribuna de uma Casa de Leis em sua defesa.
O Nosso Papel na Urna
Chegou a hora de subverter a lógica. Se eles se organizam, nós também podemos. Mas nossa organização deve passar pelo filtro da verdade.Pergunte ao seu pré-candidato:
Qual é a sua história de luta contra o racismo religioso?
Quais ações concretas você já realizou em defesa das comunidades tradicionais de matriz africana?
Onde você estava nas manifestações em que clamamos por nossos direitos básicos?
O Axé é movimento, é ação. E na política, nossa ação deve ser consciente. Que nossas mãos, as mesmas que batem o tambor e preparam o axé, saibam escolher quem realmente caminha ao nosso lado. Porque, no final do dia, a política decide se poderemos ou não continuar exercendo nossa fé em liberdade.
Votar em quem tem trajetória não é apenas uma escolha política; é um ato de preservação do nosso sagrado.
Axé!
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