Por : Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ
Águas Lindas de Goiás
O chão de terra batida do Nzo Nganga Muxitu Junsara dirigido por Mameto Deia Talamugongo, em Águas Lindas de Goiás, não vibrava apenas com o couro dos atabaques no último final de semana (25-03). Havia algo mais denso e vibrante no ar: a expectativa coletiva pela "nascimento" público de uma nova força. O toque de saída da Muzenza de Zazi não foi apenas um rito de passagem religioso, mas um manifesto de resistência, vida e consciência política.
Desde as primeiras horas, o clima era de uma ansiedade sagrada. Filhos e filhas de santo, visitantes e autoridades religiosas aguardavam o momento em que a Muzenza de Zazi cruzaria o umbral, trazendo consigo a energia do fogo, da justiça e a força ancestral que caracteriza este orixá/inquice.O Sagrado como Ato Político
Antes que o primeira batida no couro do atabaque ecoasse para anunciar a chegada da Muzenza, o terreiro silenciou para ouvir a voz firme de Mameto Deia Talamugongo. Com a autoridade de quem zela pelo sagrado e pela comunidade, Mãe Deia proferiu uma fala que ecoará para além das paredes do N’Zo.
Em um discurso humanizado e urgente, ela lembrou que o compromisso com os deuses não termina na porta do terreiro. Em pleno ano eleitoral, a Mameto exortou os presentes sobre a importância da ocupação de espaços de poder.
"Nossa fé é nossa identidade, e nossa identidade precisa de voz na política," pontuou a líder."
Mãe Deia foi incisiva ao convocar os frequentadores dos terreiros do Entorno de Brasília a transferirem seus títulos de eleitor para as cidades onde professam sua fé. O objetivo é claro: criar uma massa crítica capaz de exigir políticas públicas que respeitem e fomentem as comunidades de matriz africana. "Precisamos apoiar quem é da nossa casa, de nossa comunidade, quem entende nossas necessidades e quem não tem vergonha de defender o nosso povo," afirmou, sob olhares de aprovação e reflexão.
A Força de Zazi e a Celebração da Vida
Quando a Muzenza de Zazi finalmente surgiu, o ambiente foi tomado por uma energia arrebatadora. O branco das vestes, o brilho dos fios de conta e a dança ancestral emocionaram os presentes. Era a materialização do renascimento, a prova viva de que a tradição banto segue pulsando forte no coração de Goiás. A força de Zazi, senhor da justiça, parecia chancelar as palavras de ordem ditas anteriormente pela Mameto.
O rito fluiu com a harmonia de quem sabe que está construindo o futuro sem esquecer as raízes. Sorrisos, lágrimas de emoção e o som dos cânticos criaram uma atmosfera de acolhimento e renovação espiritual.
O Banquete da Fraternidade
Como todo bom encontro de axé, a celebração culminou em torno da mesa. Um jantar farto e saboroso foi servido, transformando o N’Zo em um grande espaço de confraternização. Entre um prato e outro, o que se via eram conversas animadas e o estreitamento de laços que fortalecem a rede de apoio da religiosidade afro-brasileira na região.
O toque de saída no N’Zo de Mameto Deia Talamugongo deixa uma lição valiosa: o axé é, também, uma ferramenta de transformação social. Saímos de lá não apenas alimentados espiritualmente e fisicamente, mas com a certeza de que nossa reza e nosso voto caminham de mãos dadas em busca de um mundo mais justo e respeitoso para todos os povos de terreiro.
Na ocasião eu, Ògan Assogbá Luiz Alves fiz mais uma distribuição da cartiha "QUEM É DE AXÉ NÃO ASSEDIA!" como mais uma forma de luta contra toda forma de assédios nos Espaços Sagrados
Axé, Águas Lindas! A força de Zazi nos guia!
Que o axé seja multiplicado.
Axé!
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Que lindo pai Ogan!!! Obrigada por sua presença, apoio e carinho de sempre!!!
ResponderExcluirUma matéria simplesmente linda, sensível e cheia de verdade, retratando com respeito e emoção a saída da nossa irmã Muzenza Mbanza Duilu do terreiro Muxito. As palavras tocaram a alma, e as imagens falaram por si. Parabéns ao irmão Ogã Luiz Alves por esse trabalho tão digno e especial.
ResponderExcluirObrigada, pai, pelo olhar sensível e pelas palavras cheias de emoção e verdade!
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