quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

“Na Prainha, o Axé ecoou forte: a Virada de Ano na Praça dos Orixás foi um ato de resistência, fé e celebração coletiva”

Por Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ 

1º de janeiro de 2026


Na noite mais simbólica do calendário, em que o tempo se curva entre o que foi e o que virá, a Praça dos Orixás — Prainha, em Brasília, tornou-se território sagrado onde o sagrado e o profano se entrelaçaram em um só movimento: o da ancestralidade em pé, pulsante, viva.

Desde o amanhecer do último dia de 2025, os caminhos da Prainha foram tingidos de pano da costa, contas coloridas, pétalas de rosas e manjericão — sinais de que a comunidade afro-religiosa chegava com o peito aberto, trazendo oferendas de gratidão pelas bênçãos do ano que findava e rogando novos votos ao futuro que se anunciava. O ar, carregado de incenso, mirra e arruda, tornou-se respiração coletiva: cada fumaça elevada, uma prece; cada vela acesa, um desejo de justiça, cura, amor e liberdade.

Durante o dia a natureza enviou seu recado, apareceu nas margens do Lago Paranoá na Prainha uma família de capivaras como que se pedissem para que cuidássemos da natureza, que tudo é muito lindo, mas precisamos agir com responsabilidade perante à Mãe Natureza.




Por volta das 18h, o palco se acendeu — mas não para espetáculo isolado. Era o início de um ato político-espiritual, tão necessário quanto urgente em tempos que ainda tentam calar nossos tambores. O Grupo Sambrasília abriu caminho com seu suingue ancestral, seguido pela potência vocal de Uel, que cantou com a alma e fez a plateia vibrar em uníssono: era o chamado à união, à memória, à força.

Logo em seguida, as lideranças religiosas assumiram o protagonismo. Com passos firmes e corações em oração, um cortejo sagrado conduziu centenas até o monumento a Exú, o Senhor dos Caminhos, o guardião das encruzilhadas — e também da liberdade de cultuar. Ali, sob o olhar atento de todos os presentes o presidente da Federação de Umbanda e Candomblé de Brasília e Entorno Sr. Rafael Moreira, ofereceu um Padê, rito de respeito e proteção, pedindo que o Orixá Exú abrisse e guardasse os caminhos da comunidade durante toda a celebração — e por todos os dias do novo ano.

E então veio o que só quem sentiu no corpo pode descrever: a gira coletiva das Casas de Umbanda. Filhos de santo trajados com as roupas sagradas de seus guias — Exus, Orixás, Erês, Caboclos, Boiadeiros, Marujos, Seu Zé Pilintra — dançaram em coro, evocando as energias que sustentam a vida, que curam a alma, que equilibram o mundo. Cada movimento, uma afirmação: “Nós estamos aqui. Nós somos muitos. Nossa fé não pede licença.”

A sequência foi dada pelas Casas de Nações, que, com reverência e majestade, tocaram em homenagem a Yemanjá, a Mãe das Águas, Rainha do Mar e Senhora da Vida. Tambores ecoaram como batidas do coração do povo, lembrando que toda origem passa por ela — e que toda renovação também.

Às margens do Lago Paranoá, o momento mais emocionante: a entrega dos balaios. Centenas de mãos carregaram cestos com flores, perfumes, doces, espelhos — tudo ofertado à Grande Mãe, como promessa e agradecimento. E quando os fogos iluminaram o céu à meia-noite, explodiu não apenas luz e barulho, mas alegria pura, coletiva, resistente. Abraços se multiplicaram. Lágrimas rolaram. “Feliz ano novo!” — diziam uns aos outros, com a certeza de que a bênção viria também dos Orixás.

De volta ao monumento a Exú, o momento religioso da noite se fechou em grande gira final, um círculo sagrado onde o povo girou, cantou, rezou e agradeceu — porque girar é resistir, é lembrar, é pedir caminho novo.

E a festa?  Kika Ribeiro entrou em cena com sua voz que transborda axé puro. Sob o comando da Iyá Betinha de Oxum, maestrina e presidente do Axé Dudú deu seguimento a parte cultural, a percussão levou todos a dançar ao som do Asé Dudú corpo e alma em movimento, como manda a tradição., e o grupo Obará encerrou a noite com uma energia que ecoou por toda a cidade: o som do povo, o ritmo da libertação, a música da identidade em chama. Entre uam apresentação cultural e outra a festa foi comandada pelo ritimo do DJ Vini Black que colocou todo mundo para dançar .

O serviço religioso do evento esteve a cargo da COMISSÃO RELIGIOSA DA PRAINHA, composta por lideranças afro religiosas que não mediram esforços para que tudo ocorresse da melhor forma possível e da forma que Nossa Comunidade é Merecedora. Mesmo com muitas dificuldades impostas talvez na tentativa de minimizar a grandeza do evento conseguimos realizar mais uma vez um evento digno de Nossa Comunidade. Eles se esquecem que somos herdeiros da força daqueles que eles tentaram subjugar pela escravidão, opressão e racismo e não conseguiram pois antes de qualquer coisa, somos filhos de Axé, somos filhos de guerreiros e guerreiras, sobrevivemos a mais de 300 anos de escravidão, ao cristianismo imposto, a eugenia e a toda forma de racismo. Nossa força e história é forjada em uma históra em que nossa pele e fé é nossa própria história  e isso nunca irão nos arrancar.

Esta não foi apenas uma celebração de fim de ano.  

Foi um ato de soberania cultural.  

Foi fé colocada em prática.  

Foi comunidade se reconhecendo, se fortalecendo, se chamando de volta.


Para todos os irmãos e irmãs de Axé, filhos e filhas de santo, ogãs, ekedis, babás, iyás, pais e mães de terreiro:  

Vocês são o pulso da ancestralidade viva.  

Vocês são a prova de que, mesmo diante do vento contrário, o tambor não se cala — ele avisa: “Estamos aqui. Estamos juntos. O ano novo começa com nosso canto.”


Que venha 2026 — com mais terreiros abertos, mais vozes erguidas, mais mãos entrelaçadas, mais oferendas ofertadas.


E que a Prainha, sempre, seja nosso ponto de encontro  

não só para virar o ano,  

mas para virar os rumos do mundo.


Axé. Salve todos os Orixás.  

Salve a comunidade afro-religiosa de Brasília!

Veja algumas fotos da virada na Prainha:















































































































Que os Orixás nos iluminem – e nos lembrem sempre que a força do nosso povo está na união. 

Axé!

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