Por: Ògan Assogbá Luiz Alves
Há sentimentos que ferem. Outros que decepcionam. Mas há um que, silenciosamente, corrói a essência humana com uma crueldade quase imperceptível: a ingratidão. Não é um grito, nem um ato violento. É um silêncio onde se esperava um "obrigado", um afastamento onde se sonhava com lealdade, um olhar vazio onde antes havia cumplicidade. A ingratidão não vem de estranhos — ela nasce no coração de quem um dia foi acolhido, aquecido, amado.
Ela é, sem sombra de dúvida, o pior sentimento humano. Não por sua intensidade imediata, mas por seu efeito prolongado, silencioso e devastador. Porque a ingratidão não machuca apenas uma vez — ela volta, dia após dia, em perguntas sem resposta: Onde eu errei? O que faltou? Será que não foi o suficiente?
O pior de tudo é que essas perguntas são falsas. A culpa não é de quem deu, mas de quem recebeu e esqueceu. A ingratidão não é um reflexo do que fizemos, mas da pequenez da alma de quem a pratica. É o sinal de alguém que, mesmo tendo sido nutrido pelo seu suor, pelo seu tempo, pelo seu amor, escolheu apagar tudo com um gesto de indiferença — ou pior: com traição disfarçada de silêncio.
Quem já foi vítima da ingratidão sabe: ela não sangra. Não há curativo visível, não há ponto a ser fechado. Mas a ferida é real. É profunda. É interna. É aquela que te impede de confiar com o mesmo entusiasmo, de abrir o peito com a mesma coragem. É a cicatriz que transforma sonhos em cautela, esperança em desconfiança. Depois da ingratidão, cada novo laço afetivo é analisado como um possível gatilho emocional. E o pior: a vida perde um pouco da sua cor.
Porque não é só o afeto que se perde — é a fé no ser humano. É a crença de que o bem feito será reconhecido, que o amor investido será respeitado. Quando isso é quebrado por quem mais confiávamos, algo em nós muda para sempre. Nunca mais enxergaremos as pessoas com os mesmos olhos. O mundo se torna mais frio, mais calculado, menos mágico. Mas há um caminho após a dor. E ele começa com um ato de libertação: arrancar o ingrato da própria vida como se arranca um dente podre — doloroso no momento, mas necessário para a cura. Não por vingança, nem por rancor, mas por autocompaixão. Porque continuar carregando quem não valoriza o que você é só prolonga o sofrimento.
E ao ingrato, resta apenas um desejo sincero: que siga seu caminho. Que encontre a felicidade que todos merecem. Mas que, acima de tudo, não repita o ciclo. Que não transforme outras almas em reféns da mesma dor que ele, um dia, escolheu causar.
Porque a ingratidão é um câncer emocional — mata devagar, mas mata. E quem sobrevive a ela aprende uma lição amarga: nem todos merecem o nosso melhor. Mas isso não nos impede de continuar sendo generosos. Apenas nos ensina a ser sábios sobre onde depositar o coração.
A dor passa. As marcas ficam. Mas a alma, mesmo dilacerada, pode renascer. Mais forte. Mais lúcida. E, ainda que com menos sonhos, com muito mais verdade.
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