Por: Ógan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ
Enquanto os olhos de grande parte do país estavam voltados para a tela da TV acompanhando o jogo da Seleção Brasileira, o verdadeiro gol de placa do domingo aconteceu às margens do Lago Paranoá. Homens e mulheres de axé, lideranças tradicionais e defensores dos direitos humanos se reuniram na Praça dos Orixás — carinhosamente conhecida como Prainha — para a primeira edição do Circuito Praça Afro Candanga. O encontro, realizado pelo Instituto Rosa dos Ventos, marca o início de uma ocupação mensal (sempre no primeiro domingo de cada mês) voltada para a revitalização, preservação e fortalecimento do único espaço público dedicado ao Sagrado de Matriz Africana e Ameríndia no Distrito Federal.
A existência da Prainha é um marco de resistência. Enquanto as religiões cristãs contam com uma Praça da Bíblia em praticamente todas as Administrações Regionais do DF, o povo de terreiro dispõe de apenas esse território para suas manifestações coletivas. Ainda assim, o local sofre com constantes ataques de intolerância religiosa e com a omissão do poder público. Por isso, o Circuito nasce com a premissa de que o território é vivo, e que a saúde integral da nossa comunidade brota do respeito à tradição e da força dos nossos passos ancestrais.
Vozes de Axé e Alianças Políticas
A mesa de conversa, mediada com sensibilidade pela Ekédjí Stéfane, reuniu referências fundamentais do nosso território. Compuseram o debate: Mãe Baiana (representando a Renafro Nacional e Centro-Oeste), Tata Kanamburá (Maracatu Boi Brillante), Mãe Vilcilene de Jagun (Coletivo das Iyás do DF) e o Ògan Assogbá Luiz Alves (FOAFRO-DF, Projeto Oníbodê e Coletivo Defensores do Axé).
Em uma costura firme de ideias, a comunidade debateu a urgência de políticas públicas eficazes e a resolução de problemas históricos que afetam os povos tradicionais da região. A força do encontro atraiu caravanas e representantes de Planaltina de Goiás, Samambaia, Paranoá, Águas Lindas de Goiás e diversas outras localidades do DF e Entorno.
O clamor da comunidade também foi ouvido por esferas institucionais. Representantes do Governo Federal estiveram presentes para colher as demandas e prioridades do segmento. No campo da política local, o espaço recebeu o pré-candidato ao Governo do DF, Leandro Grass, e o pré-candidato a Deputado Distrital Andrey Lemos — este último, um homem negro, ativista da saúde da população de terreiro e que carrega a responsabilidade e a vivência de ser um Ògan. Ambos foram escutar, de peito aberto, os anseios de uma comunidade que cansou de ser invisibilizada.
Cultura que Cura
Como o axé não se faz sem o corpo que dança e a voz que canta, a tarde foi coroada com a apresentação cultural do grupo Sambadeiras de Bimba, sob a regência firme e encantadora de Mãe Betinha de Oxum. O som do couro e o movimento das saias lembraram a todos os presentes que a nossa cultura é a nossa maior salvaguarda.
O Circuito Praça Afro Candanga fincou sua bandeira: a Prainha é nossa, é sagrada, e continuará sendo solo de troca, cura e resistência. Que venha o próximo primeiro domingo de agosto!
Que o axé seja multiplicado.
Axé!
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