Por Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ
Os primeiros toques do atabaques ainda ressoavam tênues quando o so início da tarde do último domingo, 19 de abril, quando as portas do terreiro abriram para receberem a Comunidade Afro Religiosa e Ameríndia no Terreiro Sol do Oriente, em Águas Lindas de Goiás. Era o prelúdio de uma tarde que ficaria marcada não apenas no calendário religioso da casa, mas na história de resistência de uma comunidade que, há séculos, aprendeu a transformar caminhos em afirmação de existência.
Sob a firme direção de Mãe Bete de Iansã, a casa de axé preparava-se para dar início à tradicional Caminhada para Ogun — aquele momento mais que esperado, pulsante, que mobiliza filhos, filhas de santo, visitantes e curiosos em torno de um propósito maior: honrar o Deus do ferro, do trabalho e da guerra, mas também gritar, com os pés firmes no asfalto, que a intolerância religiosa não passará impune.
A Missa que Abriu os Caminhos
Antes que os passos tomassem as ruas, houve o sagrado. A comunidade reuniu-se no terreiro para a celebração de uma missa — gesto que, longe de ser contraditório, revela a complexidade e a riqueza do sincretismo que permeia as religiões de matriz africana no Brasil. É o encontro, a conversa, a sobrevivência através da adaptação. É o povo negro brasileiro demonstrando, mais uma vez, que sabe dialogar com os símbolos sem jamais perder a essência.
Com os corações aquecidos e os caminhos abertos pelas bênçãos, o momento aguardado finalmente chegou. A Caminhada para Ogun iniciou-se com o tom poderoso dos atabaques, o balanço das vestes brancas e coloridas, e o canto firme que parecia fazer o próprio chão tremer.
O Asfalto como Altar de Resistência
As ruas de Águas Lindas de Goiás foram tomadas por um rio de fé e resistência. Palavras de ordem ecoavam entre os pontos dedicados a Ògun, Oyá e às demais divindades do Panteão Afro-Religioso e Ameríndio. "Chega de racismo religioso!", "Respeito às nossas crenças!", "Águas Lindas é plural!". Cada grito era um martelo forjando, na consciência coletiva da cidade, a necessidade urgente de respeito.
A caminhada não era apenas devoção; era denúncia. Denúncia dos ataques constantes sofridos pela comunidade afro-religiosa em todos os seus segmentos — do Candomblé à Umbanda, das práticas indígenas às manifestações culturais derivadas dessas matrizes. Cada passo era uma resposta aos que insistem em criminalizar a fé negra, em apontar o dedo para o que não compreendem, em tentar apagar o que, felizmente, resiste com a força de Oyá e a determinação de Ògun.
A Praça, a Igreja e a Tentativa de Silenciamento
O destino da caminhada era a Praça em frente à Matriz Nossa Senhora dos Anjos. Lá, os participantes realizariam a Lavagem — ritual de purificação e oferenda que, neste contexto, adquiria contornos de protesto simbólico contra os ataques dirigidos à comunidade. Mas o que deveria ser um momento de espiritualidade encontrou um obstáculo inesperado e revelador.
Dignitários da igreja tentaram impedir a realização do ato. Esqueceram, aparentemente, que a praça, embora situada em frente ao templo, é espaço público. Pertence ao povo, não a uma instituição religiosa específica. É livre acesso para todo aquele que dela queira fazer uso — seja para rezar, para protestar, para dançar ou para lavar.
A situação, paradoxal e dolorosa, ilustra o cotidiano de intolerância que as religiões de matriz africana enfrentam: mesmo em espaços públicos, a hegemonia cristã se sente no direito de estabelecer fronteiras, de definir quem pode ocupar o espaço e como. Felizmente, a questão foi solucionada e o ato prosseguiu sem impedimentos. A água, os perfumes e as ervas banharam o chão da praça, e com eles, a comunidade afirmou: este lugar também é nosso.
O Retorno e a Segurança que Faltou
Após a Lavagem, a caminhada retomou seu curso, dirigindo-se à marginal da BR-070 em direção ao Terreiro Sol do Oriente. Todo o percurso foi acompanhado por uma unidade móvel da Polícia Militar de Goiás — presença necessária em um contexto onde manifestações de religiosidade negra frequentemente se tornam alvos de violência.
Mas nem todas as instituições cumpriram seu papel. O Corpo de Bombeiros Militar de Goiás, embora solicitado, não compareceu ao evento. A justificativa veio tarde demais: Mãe Bete recebeu uma ligação informando que a corporação se dirigia ao local quando a caminhada já retornava às portas do terreiro. É o retrato de um Estado que, muitas vezes, olha para a religiosidade afro-brasileira com descaso, relegando sua segurança a um plano secundário.
Axé, Feijoada e Pagode: A Celebração da Sobrevivência
De volta ao terreiro, a comunidade reuniu-se no salão para o toque em homenagem a Ògun. A presença das outras divindades da casa enriqueceu o momento, que transcorreu em clima de "total harmonia e com muito axé", como relatam os presentes. É na roda de atabaque, no canto coletivo, na dança que o corpo se liberta e a alma se fortalece.
E porque a resistência também se alimenta de afeto, foi servida uma deliciosa feijoada, preparada com carinho e esmero pelas mãos da comunidade. Ao redor das panelas e das mesas, o reencontro, o abraço, a troca. Para fechar com chave de ouro, um maravilhoso grupo de pagode embalou a festa, provando que a cultura negra brasileira, em todas as suas expressões, é uma só tradição de celebração e vida.
Ògun na Rua, Oyá no VentoA Caminhada para Ògun realizada pelo Terreiro Sol do Oriente vai além de um evento religioso. É um ato político, cultural e existencial. É a afirmação de que as religiões de matriz africana não se escondem, não se calam, não pedem licença para existir. É o reconhecimento de que a rua também é sagrada, que a praça pública é de todos, e que a lavagem de um espaço pode ser, simultaneamente, purificação espiritual e lavagem da memória histórica — aquela que tenta apagar a contribuição africana e ameríndia na formação do Brasil.
Mãe Bete de Iansã e todos os integrantes do terreiro demonstraram, mais uma vez, que a fé que resistiu à escravidão, à perseguição, à criminalização e ao esquecimento, continua de pé. E não apenas de pé: caminhando, cantando, lavando e celebrando.
Que Ògun abra os caminhos. Que Oyá sopre a resistência. E que a Casa do Sol do Oriente continue sendo farol para tantos que buscam, na tradição afro-brasileira, não apenas religião, mas identidade, pertencimento e dignidade.
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Águas Lindas de Goiás, 19 de abril de 2026.
Que o axé seja multiplicado.
Axé!
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Foi tudo perfeito. Foi inesquecível
ResponderExcluirQue axé maravilhoso, Ogunhê Patakori Ogum ❤️
ResponderExcluirQue texto lindo. Fotos lindas! Fundamental o seu trabalho!
ResponderExcluirNossa maravilha .vc é um ótimo profissional .E um irmão de muito axé .tenho muita gratidão por vc .
ResponderExcluirTodos orixás te abençoe .sua benção .
Axé♥️
ResponderExcluirAxé 📿
ResponderExcluirAxé ❤️😍
ResponderExcluirFoi um evento lindo, um momento único, de muita emoção, parabéns a mãe Beth e a todos do terreiro Sol do Oriente pela dedicação ao sagrado. Parabéns pela matéria e pelas lindas fotos. Axe
ResponderExcluirMuito Axé e muita energia da Umbanda...🙇🙏
ResponderExcluirQue dia incrível ! Obrigada pela matéria linda ♥️
ResponderExcluirMuito axé, parabéns pelo trabalho, ótimo profissional❤️🦋
ResponderExcluirMuito axé, fé, energia de abril caminhos , energias de se renovação e uma alegria no máximo. E a palavra certa é Gratidão!
ResponderExcluirMuito Axé
ResponderExcluirSalve Ogum! ⚔️
ResponderExcluirQue bela e poderosa foi a caminhada realizada pelo Terreiro Sol do Oriente, em Águas Lindas de Goiás. E este belo texto!!!!. A caminhada foi um momento de fé, resistência e conexão espiritual que honra a força de Ogum, senhor dos caminhos, da coragem e da vitória.
Que cada passo dado tenha aberto estradas, quebrado demandas e fortalecido o espírito de todos os envolvidos. Que Ogum continue à frente, desbravando caminhos, protegendo e conduzindo com sua espada firme e justa.
Fica aqui o reconhecimento e a reverência a essa linda manifestação de fé e tradição. Que nunca falte força, união e axé nessa caminhada.
Parabéns Mãe Beth. Viva a Umbanda.
Ogum yê!