Por: Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONIBODÊ
No coração do Acre, a ancestralidade e o cuidado em saúde deram as mãos para reafirmar que o bem-estar de um povo está intrinsecamente ligado ao respeito às suas raízes. O Terreiro Cabocla Jarina abriu suas portas não apenas para o sagrado, mas para a cidadania, sediando a Feira de Saúde: Saberes Ancestrais dos Terreiros e o Cuidado na Atenção Primária à Saúde.
O evento, promovido pelo Ministério da Saúde e viabilizado com o apoio da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde no Acre (Renafro Acre), transformou-se em um marco de diálogo. Em um único espaço, convergiram a comunidade local, profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS), lideranças religiosas e instituições públicas, todos unidos por um propósito: promover um dia de cuidado, acolhimento e valorização da herança africana e indígena.
O Terreiro como Território de Cuidado Integral
Historicamente marginalizados e alvos de racismo religioso, os espaços de matriz africana vêm, há séculos, desempenhando um papel que vai muito além das obrigações litúrgicas. A ação realizada no Terreiro Cabocla Jarina jogou luz sobre uma realidade inegável: as casas de axé são promotoras ativas de saúde.
Durante a feira, reafirmou-se a importância dos terreiros como espaços fundamentais de:
Acolhimento e Proteção: Oferecendo suporte emocional e espiritual para populações muitas vezes invisibilizadas.
Segurança Alimentar: Através da partilha do *axé* (alimento sagrado e social) e do cuidado com a comunidade do entorno.
Resistência Cultural: Mantendo vivas as práticas de cuidado baseadas no uso de ervas e ritos tradicionais.
Cuidado Integral: Olhando para o indivíduo não apenas como um corpo biológico, mas como um ser social, mental e espiritual.
Ao levar a Atenção Primária à Saúde para dentro do terreiro, o Ministério da Saúde reconhece que as políticas públicas só são plenamente eficazes quando dialogam com a realidade e a cultura dos territórios onde a população vive e constrói sua identidade.
Por uma Saúde Inclusiva e Antirracista
A parceria com a Renafro Acre destaca uma pauta urgente: a necessidade de descolonizar as práticas de saúde no Brasil. O modelo biomédico tradicional ganha potência quando se abre para escutar a sabedoria das mães e pais de santo, os verdadeiros guardiões do bem-viver em suas comunidades.
Em nota, a Renafro Acre manifestou seu orgulho em fazer parte dessa construção. Para a instituição, apoiar a feira é contribuir ativamente para a edificação de um sistema de saúde que seja, de fato, inclusivo, equitativo e livre de racismo. Reconhecer e valorizar os Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana não é apenas uma questão de reparação histórica, mas uma estratégia de saúde pública eficaz.
A Feira de Saúde no Terreiro Cabocla Jarina deixa uma mensagem clara: a cura e o cuidado passam, obrigatoriamente, pelo respeito à ancestralidade. Que este encontro no Acre sirva de espelho para que os saberes ancestrais sejam, cada vez mais, integrados e respeitados dentro das políticas de saúde de todo o Brasil.
Que o axé seja multiplicado.
Axé!
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