Por: Ògan Assogbá Luiz Alves/PROJETO ONÍBODÊ
Por que cultuamos os mortos e esquecemos dos vivos?
Há uma cena que se repete nos terreiros de Umbanda e nos Ilês de Candomblé de todo o Brasil, e ela deveria constranger quem tem fé no corpo. Enquanto as oferendas são dispostas com rigor para os que já partiram — ovos, acaçás, flores frescas, água de coco —, do outro lado do quintal, ou em um cômodo esquecido da casa, senta-se o corpo envelhecido de quem ainda respira. É o Griô do terreiro. O Babalorixá de joelhos duros. A Iyalorixá de mãos trêmulas que já embalaram tantos filhos de santo. A pessoa que, literalmente, carrega na memória a linha de um toque que não está escrito em lugar nenhum. A voz que sabe, de cor, a história de uma nação (nzo) inteira. E, no entanto, aí está ele, ou ela, às vezes sem o remédio da pressão, sem a fralda geriátrica, sem o olhar atento de quem deveria zelar.
A pergunta que precisa ecoar nos pátios sagrados não é simples. Ela é incômoda, cortante, e exige resposta imediata: a nossa comunidade afro-religiosa, tão eloquente no discurso sobre ancestralidade e reverência aos mais velhos, tem praticado o que prega? Ou o respeito ao idoso se transformou em mera teoria panfletária — um discurso retórico para nos diferenciarmos de segmentos que historicamente desprezaram a velhice negra?
O Corpo que Envelhece e a Casa que Treme
Não dá para falar de etariedade no universo afro-brasileiro sem reconhecer o paradoxo brutal que vivemos. Somos herdeiros de cosmologias onde a velhice é sinônimo de sabedoria, onde A Orixá Nanã, entre outras manifestações da divindade, carrega o mistério da maturidade última, do início e do fim. O tempo, no pensamento africano tradicional, não é linear e descartável. Ele é acumulativo. Quanto mais anos, mais axé. Quanto mais cicatrizes, mais história. Mas a realidade material bate à porta — e ela bate forte.
O avanço da idade no Brasil já é, por si só, um cenário de guerra para a população negra. Dados cruciais mostram que o idoso negro enfrenta taxas de desemprego maiores, aposentadorias mais humilhantes, acesso precário à saúde e uma velhice marcada pelo assistencialismo forçado. Agora, transporte isso para dentro dos terreiros. Muitos dos nossos mais velhos não possuem renda formal. A sobrevivência deles dependia — e ainda depende — da dádiva dos filhos, da mesada simbólica de quem consulta, da venda de artesanato sagrado. Quando o corpo fraqueja e a memória começa a dar sinais de esquecimento, o que era sustento transforma-se em dependência.
E é aí que mora a tragédia: o abandono.
Não o abandono gritado, nem sempre. É o abandono silencioso. É o Griô que deixa de ser consultado para as decisões importantes do terreiro porque “está lento”. É a Iyakekerê (mãe de menor hierarquia, mas ainda anciã) que é afastada da cozinha sagrada por medo de que “se queime” ou “esqueça o ponto do molho”. É o ancião que, por não mais conseguir dançar o aguerê com a mesma ginga, é colocado na cadeira na festa, mas não na mesa das conversas que definem o futuro da casa. É a exclusão sutil, a invisibilidade que se instala sob o véu do “cuidado” — quando, na verdade, é pura retirada de poder.
A Diferença entre Cultuar e Cuidar
Aqui é preciso separar o joio do trigo com a honestidade de quem ama a tradição. Existem, sim, comunidades que estão fazendo o trabalho de forma linda e exemplar. Filhos e filhas de santo que criaram verdadeiras redes de apoio, que garantem a manutenção médica dos pais e mães velhos, que adaptam os espaços físicos dos terreiros para acessibilidade, que gravam em áudio e vídeo os relatos dos anciãos antes que o tempo os leve. Isso existe, graças aos Orixás.
Mas seria desonestidade intelectual fingir que isso é a regra.
Em muitos casos, o que se vê é uma retórica inflamada sobre o valor do “respeito aos mais velhos” sendo usada como marca identitária “nós, negros de terreiro, respeitamos nossos velhos” enquanto, na prática cotidiana, o idoso é visto como fardo. A cobrança é velada: “Mãe, você já está muito velha para isso”. Ou pior: a substituição acelerada, onde a nova geração, sedenta por protagonismo, esquece que o lugar do jovem no sagrado não é ocupar o trono antes da hora, é justamente segurar a base para que o trono não caia.
O abandono material é apenas a face mais visível. O mais doloroso é o abandono simbólico. É quando o ancião deixa de ser visto como portador de saber para ser tratado como uma criança grande. Quando suas decisões são contestadas não por divergência de fundo, mas pelo simples fato de que ele “já não entende mais os tempos de hoje”. Como se o tempo de hoje não fosse, justamente, o resultado de todo o tempo que ele viveu.
Griô como Pessoa, não como Conceito Decorativo
Precisamos falar sobre o Griô com a realidade que o termo exige. No contexto afro-brasileiro, adaptamos a figura do griot africano para nomear aqueles que são a memória viva da casa. Mas há um perigo grave em mitificar a figura do ancião enquanto se nega sua humanidade plena. O Griô não é uma estátua. Ele não é um ornamento que enfeita o terreiro e dá credibilidade histórica à nova direção. Ele é um corpo que dói, que teme, que sente frio, que precisa ser ouvido quando fala de coisas além do sagrado — como a solidão, como a saudade de quem já foi, como o medo de ser esquecido.
E o abandono, quando acontece, tem um gosto especialmente amargo dentro das religiões de matriz africana. Porque nós, que acendemos vela para o Egun, que pomos comida na esã ou no igbá Orixá, que dizemos que os Ancestrais estão vivos no outro plano e nos guiam... nós, de todos os segmentos sociais, deveríamos ser os últimos a deixar um ancião de verdade — de carne, osso e história — à margem.
Não estamos falando apenas de caridade. Estamos falando de coerência espiritual. É impossível ter um culto robusto aos ancestrais mortos enquanto se abandona o ancestral vivo.
E os Jovens? Onde está o Erro?
Não dá para colocar toda a culpa nos jovens. A questão é estrutural. Vivemos num país que nos ensinou a desprezar a velhice. Um país onde o corpo negro envelhecido é triplamente invisibilizado: por ser negro, por ser velho e, muitas vezes, por ser pobre e religioso de terreiro. Os jovens que entram para o Candomblé e a Umbanda hoje chegam com fissuras formadas por essa sociedade. Eles reproduzem, sem perceber, o racismo etário (ageísmo) que aprenderam no mundo de fora.
Mas é justamente aí que entra o papel transformador da comunidade afro-religiosa. Se o terreiro não consegue ser um espaço de refúgio contra a lógica descartável do capitalismo, da produtividade e do vigor juvenil, então falhamos na nossa missão mais profunda. A casa de santo precisa ser um lugar onde a etariedade é celebrada, não tolerada. Onde o ancião não é “ainda útil”, mas é sagrado porque envelheceu.
A mudança começa na escuta ativa. Na criação de rodas de conversa onde o mais velho fala e o mais novo ouve — de verdade, sem interromper para corrigir. Na distribuição de recursos que garanta dignidade material. Na resistência em aposentar simbolicamente quem ainda tem fôlego para contribuir. E na coragem de questionar líderes de terreiro que, no afã de manter o “funcionamento” da casa, esquecem que o terreiro não é empresa. É família de axé. E família não se demite do seu velho.
Um Chamado ao Axé que Acolhe
Ancentralidade não é só o culto ao passado. Ela é, acima de tudo, a responsabilidade com o presente que está se tornando passado aos nossos olhos. Cada Griô que hoje é esquecido no canto é um pedaço do axé coletivo que se perde. E quando ele partir, não adiantará chorar, fazer ojubô, axêxê e dizer que ele foi importante. A hora de honrar é agora, enquanto ele respira.
A comunidade afro-religiosa brasileira precisa fazer um rigoroso exame de consciência. Estamos criando políticas internas de cuidado com o idoso? Estamos destinando parte da renda do terreiro para a saúde dos nossos mais velhos? Estamos incluindo seus nomes nas decisões, mesmo que demorem mais para se expressar? Estamos ensinando os jovens a ver no corpo envelhecido o próprio Orixá, e não apenas um estorvo administrativo?
Se a resposta for não, então que seja dito sem acusações vazias, mas com o compromisso de mudar. Que cada filho e filha de santo leia este texto e olhe para o canto do quintal. Lá está, talvez, o verdadeiro teste do nosso axé. Não está no número de iniciados. Não está na beleza das festas. Está na forma como olhamos para quem nos precedeu.
Porque, no fim das contas, a forma como tratamos nossos vivos velhos é exatamente a forma como estamos ensinando o futuro a nos tratar. E quando formos nós, sentados naquele canto, o silêncio que nos rodear será o mesmo que deixamos ecoar hoje.
Que o silêncio seja de presença. Que o cuidado seja de verdade. E que a etariedade, dentro dos nossos terreiros, deixe de ser um problema para se tornar a nossa mais pura e legítima ancestralidade em movimento.
Axé!
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